"Sh... Silêncio.

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Tiago Fernandes

Tiago Fernandes

Número 1 do ranking juvenil e campeão do Australian Open na categoria em 2010

Uma mudança drástica à procura da felicidade

Eu me sentia dando um murro em ponta de faca. 

Me aposentei do tênis profissional aos 21 anos, apenas quatro temporadas depois de ter sido campeão juvenil do Australian Open.

Não aconteceu da noite para o dia. Tomar uma decisão drástica que vai mudar sua vida não ocorre simplesmente de um dia para o outro. É um processo que você vai amadurecendo, que você vai refletindo. Para mim, não fazia mais sentido seguir. 

Eu já não sentia felicidade de estar em quadra, de viajar no circuito. O ambiente em si não me fazia bem. Não era saudável para mim. Costumo falar uma frase que se encaixa muito para o que eu sentia no momento: “A probabilidade que eu via de um retorno pessoal era desproporcional ao esforço que eu estava fazendo”. 

Às vezes as pessoas confundem. Acham que eu desisti porque comecei a perder. Que eu não tinha bons resultados e desisti de tentar. Não é bem por aí. 

Na vida de um tenista é preciso fazer isso centenas de vezes. Joguei tênis por 15 anos. Perder e se esforçar para ter resultados melhores é algo que acontece sempre. Foi uma situação diferente da decisão de parar de jogar. Não foi “pô, não seguiu porque tentou pouco”. Foi realmente porque o tênis já não me fazia feliz. Internamente, eu já não via razão para continuar fazendo o esforço que era necessário. Calma que eu chego lá.

Nasci em Alagoas, em Maceió. Minha família era de classe média e não tem tradição no tênis. Quando eu comecei a jogar, minha família já tinha uma condição melhor, já não era de classe média. Ainda juvenil, quando eu viajava com treinador e disputava alguns torneios na Europa, os gastos chegavam a 250 mil reais por ano.

Meu pai jogava por hobby e sempre me incentivou a praticar esportes. Comecei a jogar no auge do Guga em 2000, 2001. Lembro como se fosse ontem da rádio noticiando um título dele quando estava a caminho da aula de natação. Quando eu tinha sete anos, ele era o número 1 do mundo. Foi assim que muitos de nós demos as primeiras raquetadas.

No início eu fazia futsal, tênis e natação. A partir do momento que eu desenvolvi mais no tênis, comecei a competir e ganhar campeonatos estaduais, fiquei só no tênis. A decisão foi tomada bem cedo. 

Aos 12 anos, eu já ganhava os principais torneios brasileiros: Banana Bowl, Copa Gerdau, Brasileirão… eu me destaquei rápido. A minha decisão de seguir no tênis foi de 13 para 14 com o circuito COSAT, na América do Sul. Os primeiros colocados vão para gira na Europa. Eu fui, ganhei um torneio na Alemanha e tive resultados bastante expressivos no Mundial. 

Naquela idade eu já assinei um contrato com a Octagon, uma empresa de agenciamento que foi a do Guga a vida inteira. Foi o primeiro divisor de águas para mim. No mesmo ano, eu fui jogar torneios juvenis nos EUA, o Eddie Herr e o Orange Bowl, duas das principais competições para juvenis. Tive bons resultados e consegui patrocínios. Coisas grandiosas para um menino de 14 anos. Caiu a ficha. Eu seria um tenista profissional.

Meu caminho se cruzou com o do Larri justamente naquela época. Até os 12 anos eu ficava em Maceió, mas precisei buscar um treinador em outro estado. Fui treinar com o Carlos Chabalgoity, o Chapecó. Ele é um treinador conhecido no meio, bem diferenciado. Eu ainda não tinha saído de casa definitivamente. Fazia a ponte entre Maceió e São Paulo e depois Brasília, época em que ele me treinou e viajou comigo para os torneios. Em dezembro de 2007, encerramos a parceria. 

Quase fui para o Rio de Janeiro treinar com o Ricardo Acioly, o Pardal, que liderava uma equipe na época. A Octagon ligou para o Larri e falou comigo, fez a ponte entre nós dois. Um mês depois, eu fui bater lá em Balneário Camboriú por meio do contato que a Octagon fez. Cheguei em janeiro de 2008.

A distância pesava demais. Eu conversava muito com o Thiago Monteiro, um ano mais novo do que eu, sobre a falta que eu sentia da minha família… a falta que eu sentia de Maceió. Para mim, sempre foi um grande desafio. Não só para o nordestino, mas um pouco a mais para nós porque não temos centros maiores ou pessoas em quantidade para jogar em bom nível. Inevitavelmente temos de nos deslocar.

O fator geográfico sempre foi um desafio para os brasileiros. Para mim, em específico, isso agravou porque eu sou apegado à minha família. A distância era complicada porque para chegar em Santa Catarina é quase a mesma para chegar a Miami, praticamente. Eu demorava sete horas para chegar lá: três de Maceió para São Paulo, normalmente duas de conexão, uma do voo para Florianópolis e uma de carro até Camboriú.

Quando você vai para Europa você vê outra realidade. Há um volume de torneios concentrados e você se desloca pouco. Eu me lembro muito bem disso. 

Enquanto o sul-americano está ali há dois, três meses direto sem base ou casa, os europeus vão e voltam quase toda semana de trem para suas cidades porque é tudo perto. Duas, três horas e eles estão no próximo torneio. É um negócio que parece ridículo, mas faz muita diferença. Porque dá para recarregar as energias, se recuperar para o próximo desafio.

Ficava em Maceió quatro semanas no ano. Semana de Natal, Réveillon e alguma outra que conseguia encaixar. Claro que tem a questão da cultura, tem a questão do argentino ter menos um plano B. Mas o aspecto do local é muito latente.

Tive uma experiência no final da minha carreira de ter um ponto de apoio em Buenos Aires e é incrível como em um raio pequeno tem uma quantidade enorme de jogador junto em um nível alto. Há essa troca de experiência de diversos tenistas em um mesmo local, entre academias que são muito próximas umas das outras. São incentivos e motivações conjuntas. E aqui no Brasil isso é espalhado em locais diferentes. Os bons jogadores em locais distintos e há menos trocas de experiência. Quando houve isso por aqui, foi momentâneo.

Não lembro exatamente quando foi a primeira vez que fui chamado de novo Guga. Quando eu venci o Aberto da Austrália juvenil, em 2010, a comparação veio com tudo. Fui destaque em jornais, na televisão e tudo que você possa imaginar. 

Fui o primeiro brasileiro a vencer um Grand Slam juvenil em simples. Não tinha como fugir disso. Em qualquer esporte, quando você tem um ídolo, a comparação é natural. Acho que isso veio forte também quando atingi o topo do ranking juvenil porque o Guga não fez isso apesar de ter sido excelente também.

É difícil explicar, mas acredito que a comparação aconteceu porque as pessoas viram aquele resultado e acabaram pensando “pô, o cara foi melhor que o Guga no juvenil”. Só que o pessoal esquecia que dois, três anos depois de se profissionalizar, o Guga estava ganhando Roland Garros profissional. A transição dele foi extraordinária. Não é o comum.

Quando um tenista está na fase de transição ele tem de aprender. Não tem jeito. Você tem que aceitar as comparações porque elas são inevitáveis. Hoje eu vejo que o Thiago Wild está fazendo bem isso, pelo que acompanho. Você precisa ter um bom trabalho mental para aprender e suportar aquilo porque durante toda sua carreira você vai ter de lidar com a pressão e com expectativas.

A minha carreira como juvenil se encerrou aos 17 anos basicamente. Ganhei o Australian Open, fiz quartas em Roland Garros… Não fazia mais sentido jogar o sub-18 mesmo que eu pudesse por mais uma temporada. No ano seguinte eu já comecei a jogar os torneios profissionais. Em abril de 2011, eu fui jogar um Challenger em Pernambuco. Ser vice-campeão foi um dos momentos mais marcantes da minha breve carreira porque não era algo fácil de se fazer naquela época. 

Depois de fazer final em Challenger, fui jogar na Europa. Foi ali que eu vi que havia uma distância considerável para percorrer. O resultado aqui no Brasil foi contra sul-americanos, poucos europeus. Fiquei três meses jogando qualis de ATPs e Challenger por lá e eu senti uma dificuldade tremenda. Era outra realidade.

Foi uma tentativa de transição realista, digamos assim. Porque o tênis acontece na Europa. Foi o momento que eu tive esse choque de realidade. Não vieram os resultados que eu estava esperando. E, para piorar, comecei a sentir lesões. Mesmo após atingir final em Challenger, fiquei patinando no circuito. Não conseguia ter resultados expressivos nem nos Futures. 

Nunca consegui dar aquele passo a mais. A minha carreira até então tinha uma curva intensa, muito forte indicando que eu seria um cara top. Era tudo o que eu sempre queria ser. Sempre me imaginei tendo resultados que tinha como adolescente. E, depois disso, a realidade mudou um pouco para mim.

Acredito que minha situação foi atípica. Porque como os resultados se encaminhando no início, não tinha como pensar diferente ou fazer diferente. Ninguém iria imaginar que eu seria diagnosticado com uma lesão crônica tão jovem.

A lesão propriamente dita não foi o único fator. Você fica um tempo sem jogar e perde ritmo, perde confiança. Fui diagnosticado com pubalgia. Fiquei seis meses parado entre 2012 e 2013. Era uma lesão chata de se tratar porque quando eu achava que eu tinha me recuperado… A dor voltava. 

Quando eu menos esperava, sentia a lesão. Meu púbis estava inflamado. Jogar com dor atrapalha a sua preparação física, sua confiança no momento crucial. E são duas situações complementares: a lesão e consequentemente o ritmo e a confiança que você perde. 

No meu caso, especificamente, eu criei algumas expectativas mais intensas internamente pelos resultados que eu tinha tido como juvenil e no início do profissional. Foi natural. Era a visão que eu tinha. Às vezes eu me comparava com outros jogadores da minha idade, de outros lugares do mundo. E isso vai te minando por dentro.

Eu pensava: “Estou em uma situação, mas deveria estar em outra”. É duro de entender. Você precisa trabalhar muito o mental para compreender que cada um tem seu tempo. 

Mas quando você está vivendo isso é difícil entender tudo o que está acontecendo. Eu estava no fogo cruzado. Não tem como mentir, todas essas dúvidas e questionamentos passaram pela minha cabeça. Meu físico também me deixou na mão. Eu me sentia pior do que nos anos anteriores, às vezes. E isso martelava em cheio na minha cabeça.

Não tinha vontade de acordar para jogar uma partida de tênis. Aquilo não me estimulava. Não havia mais aquela paixão dentro de mim. Na verdade, aquilo me desanimava. Eu queria distância. Queria estar em qualquer lugar que não fosse uma quadra de tênis.

Todos esses pensamentos e dúvidas me faziam sentir mal. Mal mesmo. A curva que deveria ser crescente foi decrescente até a minha parada.

A minha expectativa não acompanhava os resultados que eu vinha tendo. Eu era o juvenil número 1 do ranking, estava jogando contra os melhores do mundo. Só que eles despontaram na minha frente e eu fiquei para trás. Eu achava que estava na frente por ter feito final de Challenger, pensei que estava antecipado na transição. Parecia que ela seria mais rápida. Puro engano.

Quando tinha 21 anos eu via que a distância para o top 100 era muito grande. E acima disso, até mais importante do que isso, os meus resultados não eram condizentes com esse caminho rumo ao top 100. 

O ambiente de Future não era sadio e se tornou repetitivo. Para você ser um top 50, você tem de tentar passar por essa transição com dois anos. Três no máximo. Na minha situação isso não aconteceu. Eu não tava me estabelecendo bem nem nos Futures, não tinha bons resultados.

Minha expectativa a longo prazo era entrar no top 100 e dali me firmar como top 50, um top 20. Meus resultados foram muito mais inconsistentes do que eu esperava. E, sim, eu sabia disso. Eu sentia isso. Os problemas físicos, a falta de confiança, o próprio nível de tênis que eu jogava… Eu não estava no caminho para ser um top 100. Eu via as chances diminuírem cada vez mais. 

Esse meu sentimento seguiu do meio até o fim.  As probabilidades vinham escassas pela forma que eu me sentia em quadra, pelos resultados que eu vinha tendo. Não parecia que eu tinha passado tanto tempo fazendo aquilo. Era um custo-benefício muito ruim. 

Quanto mais você se destaca mais cedo, a expectativa que você coloca acaba sendo proporcional a esses resultados. Não acho que seja ruim. Mas você tem que trabalhar isso psicologicamente. 

Quando você vira um tenista profissional, você tem uma sensação e um objetivo. E cada um tem o seu. Até pela própria forma de pensar. Na minha cabeça ser um jogador top 100 não era um sonho de vida. Não era algo que ia me realizar por completo. Claro, era a minha primeira meta, mas eu não queria viver como um cara top 100. Na verdade, eu queria um pouco mais. Eu queria repetir a história do juvenil, eu queria estar no top 50 com uma estabilidade e jogando os principais torneios do mundo.

Você pode estar aí pensando “Ah, mas o Tiago pensa muito alto, teve menos humildade do que fulano”. Não é isso. Essas sensações que nós, tenistas profissionais, temos são muitos peculiares e particulares de cada um. 

Mas… “Por que ele não tentou mais?”. Para mim, naquele momento, eu já sentia que não estava no caminho onde eu queria chegar. Aos 21 anos eu sentia que… não que era impossível, mas que havia um abismo. A probabilidade de atingir minhas expectativas só diminuía. 

Qualquer pessoa que jogou tênis e toma um rumo muito diferente sofre uma mudança drástica na vida. Pensei em largar o tênis diversas vezes na minha carreira, assim como qualquer profissional, por não estar jogando bem. Mas aquela situação era diferente. Não era mais momentâneo. 

Aquela sensação não passava. Não foi como antes. Não foi como no mês que eu venci o Australian Open, quando eu perdi semanas antes num torneio preparatório.. na primeira rodada da chave dos perdedores, uma espécie de “consolação”. Dois dias depois eu queria estar na quadra treinando mais duro para me preparar para o próximo desafio, para fazer diferente na semana que ia começar. Dessa vez, não sentia isso. Eu não estava feliz naquele ambiente. Eu não estava bem.

Antes de tomar a decisão de me aposentar, eu estava trabalhando com o Nivaldo Tedesco, um psicólogo de Florianópolis. Nos últimos torneios que eu fui jogar, em maio de 2014, decidimos que ele iria comigo para Antália, na Turquia. 

Seguia com uma sensação ruim e não me senti bem naqueles torneios, o que influenciou ainda mais a minha escolha pela aposentadoria. O psicólogo me ajudou a enxergar melhor a situação. Não era mais aquela birra de “Ah, vou parar porque perdi um jogo”. Nada disso.

Já era meu quarto ano como profissional e eu não tinha passado das oitavas nos sete torneios que joguei na temporada. Uma derrota na estreia, outra na 2ª rodada e aquela gira na Turquia se tornou a última da minha carreira.

Naquela semana fiz diversos exercícios e trabalhos psicológicos baseados em coisas concretas, treinamentos que ele utilizava para algumas situações, até para a tratamento de outros problemas psicológicos e até para cura de doenças.

Precisei entender melhor o que estava acontecendo comigo antes de tomar uma decisão que eu não fosse me arrepender. Nosso trabalho no meu último torneio visava uma decisão feita de forma racional, de maneira tranquila. O exercício era me imaginar sem o tênis para entender se decidir parar não poderia me fazer mal depois. E eu consegui.

Quando voltei ao Brasil, escolhi a Engenharia, curso no qual me formei em 2019. Aquele trabalho em Antália me ajudou demais para o momento pós-parada não ser traumático. 

Eu ainda assisto a tênis direto, sempre tento encontrar amigos tenistas e até levo raquete para jogar se viajo. Gostaria até de praticar mais o tênis como um hobby, falta um contato maior com o pessoal porque fico meio afastado aqui em Maceió.

O tênis me trouxe benefícios enormes nesse processo fora das quadras, então, mesmo sem ter seguido, eu sempre digo para que se esforcem ao máximo. O tempo que eu tive na carreira tenistica me fez e me faz ser outra pessoa. Consigo enxergar e viver o dia a dia de uma forma totalmente diferente e vejo muita relação com o esporte. 

Porque o tênis pode te abrir muitas portas e proporcionar oportunidades que são mais difíceis sem o esporte, seja uma faculdade estrangeira ou simplesmente ter saúde por praticar em um bom nível e encarar os problemas que a vida apresenta fora da quadra com mais maturidade pelo enfrentamento semanal proporcionado pelo circuito. No tênis, basicamente você perde um jogo por semana e isso te fortalece muito. 

Meu último torneio foi em maio de 2014, mas só anunciei a aposentadoria em agosto, depois do início das aulas no Cesmac.

Quatro anos antes de começar a faculdade, eu era o melhor tenista juvenil do mundo. Na sala de aula, eu era um iniciante em nova atividade, um estudante de Engenharia e estagiário em uma obra. Tive muita dificuldade para passar esse momento inicial de choque. 

Naquele ambiente eu era mais um. Eu era um aluno cursando faculdade. Foi uma realidade bem difícil de absorver. Poucas pessoas reconheciam quem eu era. Eu não estava mais em evidência. Foi uma situação de ter mais humildade. Precisei me colocar no lugar em que eu estava.

A dificuldade maior não foi a mudança da rotina, mas sim ter humildade que eu precisava para começar na engenharia do zero. 

Mas, aos poucos, eu consegui enxergar um novo sonho. Fazia tempo que eu não tinha um novo objetivo. A situação se normalizou e consegui encontrar um novo foco. A partir daquele momento, fiquei tranquilo e voltei a ser feliz.

Créditos: João Pires, Divulgação/COB, Marcelo Ruschel/POA Press, Cristiano Andujar, Arquivo Pessoal, Divulgação/TV Globo

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