"Sh... Silêncio.

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Thomaz Bellucci

Thomaz Bellucci

Nº21 do mundo em 2010, vencedor de 4 ATPs e segundo brasileiro mais bem ranqueado na história em simples

A inevitável imagem que eu não gostaria de ter

Sempre me preocupei muito com o que os outros iam pensar de mim. Talvez até demais. Ser tenista é ser julgado o tempo inteiro. Depende do resultado e você tem de lidar bastante com o aspecto mental. É um esporte que maximiza tudo da sua vida. Toda a sua vida entra dentro da quadra. E muitas vezes você acaba perdendo pelo extra-quadra. O mais fácil é jogar o tênis. É chegar ali e treinar. O mais difícil é lidar com todo o resto.

Eu sempre fui um garoto muito introvertido. Sempre tive muita dificuldade de fazer novas amizades. A escola era um lugar onde eu não gostava de estar. Eu tinha poucas amizades. O positivo do colégio são os relacionamentos sociais que você cria, as amizades que você leva para o resto da vida. Eu tinha mais facilidade em fazer amigos no meio do tênis. 

Talvez isso tenha me levado mais para o lado do esporte. Jogo tênis desde os 5 anos de idade por causa dos meus pais. O tênis sempre esteve envolvido na minha vida. O esporte foi muito importante não só como profissão, hoje, mas também como ambiente social em que me sentia confortável. Eu conseguia ser mais feliz dentro de quadra. Então, é possível que isso tenha sido o impulsionador para seguir no esporte e tomar gosto pelo tênis.

Quando você passa a jogar melhor – eu comecei a jogar bem com 19 ou 20 anos – você ganha uma voz ativa na mídia. Hoje vejo que tive muita dificuldade de me comunicar quando era mais jovem. Essa dificuldade causou uma barreira com os fãs, com as pessoas que acompanhavam tênis na época. Muitas vezes o que eu queria dizer, não conseguia. As pessoas achavam que essa timidez fosse uma arrogância minha, uma prepotência que eu nunca tive.

Uma das coisas de que mais me orgulho é que eu sempre fui muito pé no chão. Nunca me deixei levar pelas conquistas. Sempre fui eu mesmo desde o início, quando ainda não tinha ganhado nada. Eu sou a mesma pessoa. 

Quando era mais jovem, não conseguia me expressar. Eu me comunicava mal com os fãs, com as pessoas e isso passou uma imagem ruim, uma imagem distorcida, como pessoa mesmo, nem tanto como jogador. Talvez isso tenha causado um mal-entendido. Possivelmente, é por isso eu tenho uma imagem que não é a que eu gostaria de ter. 

Quando você é uma figura pública, acaba sendo julgado. Julgado o tempo inteiro. Às vezes é bom você tacar aquele foda-se, sabe? Tentar pensar “eu vou fazer meu máximo e as pessoas vão falar mal ou bem independentemente do que eu faça”. 

Depoimento de Thomaz Bellucci

Foi inevitável pela maneira que o meu relacionamento foi criado com as pessoas. Sempre fui um cara muito tímido, introspectivo e às vezes eu não conseguia me comunicar muito bem. Foi uma trajetória meio que natural que aconteceu. Hoje eu até me expresso melhor, mas, depois de tantos anos, é difícil se desvincular daquela imagem.

Poucas pessoas sabem, mas tive uma relação complicada com o tênis e com a minha família no início. Desde muito pequeno, tive de aprender a ser cobrado para ser um cara bem-sucedido e disciplinado. Um atleta que fazia tudo certo. Meus pais me trouxeram para o esporte, e têm muito mérito por eu ter chegado tão longe, mas acho que eu poderia ter tido uma relação mais leve com o tênis. Meu pai me cobrava muito em questão de resultado e disciplina.

Eu tinha um conflito interno. Queria jogar e mostrar para o meu pai que queria ser um bom jogador. Com isso, acabei perdendo partes da minha infância que não voltam mais. Eu gostava de jogar, mas essa situação me deixou com sensações ruins que fui levando comigo na minha jornada como tenista.

Até hoje sinto que existe uma pressão familiar muito grande nas crianças que jogam tênis. Os pais criam uma expectativa enorme em cima dos jovens e isso se torna prejudicial. O mais importante é a criança se dedicar, ser uma criança disciplinada, ser uma criança resiliente. São valores que ela vai levar pra vida, não só para a quadra. Mas a pressão de resultado não tem que ser criada desde pequeno porque se perde um pouco o prazer de jogar se você só vê o placar. 

O mais importante quando você começa em algum esporte é ter prazer em fazer. Fazer com um sorriso no rosto, sabe? Mais importante que ganhar ou perder, são os motivos para começar no esporte e as coisas que você consegue tirar de positivo. Não jogar o tênis para virar profissional, mas dar o seu melhor e ir vendo o decorrer do caminho sem se iludir.

No meu caso, sempre fui incentivado a virar tenista. Eu também queria muito a aceitação do meu pai, o orgulho dele como pai vendo o filho virar tenista. Em nenhum momento ele disse “se você não for bem, vai ter que parar de jogar”. Talvez as dúvidas que foram crescendo foram mais de mim mesmo. Por ter de abdicar de muita coisa para virar profissional e sentir que estava perdendo minha infância e adolescência. A minha vida virou o tênis.

Precisei fazer minha primeira cirurgia aos 16 anos. Tive de operar o joelho na reta final do juvenil e refleti o que eu queria mesmo para a minha vida, se deveria mesmo virar profissional. Já tinha tido resultados expressivos para um juvenil, mas estava cansado. Cansado de jogar, de ficar viajando, da cobrança de resultados.

Fiquei um semestre sem jogar. A pausa me fez bem. Foi um momento de repensar as coisas. Um período difícil que me fortaleceu para pensar no que eu queria para minha vida. E resolvi seguir. Tive sorte de ter bons resultados com 19 anos. Isso acabou tirando um pouco de dúvida da minha cabeça.

Por mais que eu tenha tido momentos difíceis na minha carreira profissional, nunca pensei em parar ou desistir. Nunca mais tive muita dúvida de que eu queria ser um jogador, de querer viajar, continuar jogando. Sempre gostei de competir. 

A pausa por doping foi o momento mais desafiador da minha carreira. Além do período de perder o ritmo, de voltar do zero, tinha a questão emocional, de como as pessoas iam receber a notícia. Para mim isso pesava muito mais do que perder pontos no ranking, premiação… Não me preocupava em despencar ranking, mas sim com aquilo que estava acontecendo comigo na época.

Quando você faz as coisas erradas e isso vem à tona, você não está muito preocupado porque você fez cagada e pronto. Só que eu não tinha feito nada de errado e tinha de pagar por um preço que não era meu, mesmo sem ter feito nada errado. Foi o período mais desafiador, mentalmente. Mais do que voltar a jogar e ter de reencontrar o caminho das vitórias.

Não sei dizer se eu estava depressivo ou não durante a suspensão. Foram três meses de total incerteza, eu não sabia o que ia acontecer. Estava muito angustiado e apreensivo. Não havia nada definido. Tentava me defender, confiava na minha inocência, mas as pessoas próximas de mim percebiam que eu estava mal. Era uma situação que eu não tinha controle algum. Tinha que ficar esperando uma resposta que não vinha. Estava chateado por não poder jogar. Sabia que uma hora teria que ir publicamente contar o que aconteceu e lidar com o julgamento das pessoas. Foi angustiante porque eu sempre me preocupei com o julgamento das pessoas.

14 de Fevereiro de 2013, São Paulo. Lembro até hoje desse dia. Foi um divisor de águas para mim. A maioria das derrotas que eu tive, não me lembro direito. Fiz tantos jogos na minha vida que muitas delas eu sinceramente não me recordo. Mas esse dia em especial, no Brasil Open, eu me lembro com bastante lucidez. 

Meu jogo de estreia em São Paulo foi muito duro. Venci o Clezar no tie-break do terceiro set.  Na hora que acordei, no dia seguinte, eu já me senti cansado, sem energia. O dia de descanso para o jogo seguinte não adiantou. Aquilo não passou. No aquecimento do próximo jogo, lembro que virei para o meu treinador e desabafei “hoje eu não tô legal, eu não consegui me recuperar”. Entrei em quadra nas oitavas de final já sem energias, me sentindo mal.

Tentei dar o meu melhor naquela quinta-feira, mas a verdade é que eu não tinha energias para dar. Sabia que tinha que fazer algo diferente para vencer o Filippo Volandri, meu algoz italiano do ano anterior, porque não jogaria o meu melhor.

Eu não consegui. Perdi por 6/3 e 6/2. Deu tudo errado. Deixei a quadra sob vaias no meu próprio país. Fiquei triste pelo resultado e ainda mais pelo coro de vaias que ecoou pelo Ibirapuera enquanto eu saía de quadra cabisbaixo e chateado. Não foi a primeira vez, foi a mais marcante. Eu dei o meu máximo. Não foi o suficiente para o público aceitar a minha derrota. Aquilo me doeu.

Quando você joga em casa, você quer ser apoiado independentemente do resultado. Sempre tem a motivação extra de você jogar junto com a torcida, ver o público te empurrar. Aquele dia mudou um pouco a minha relação com a torcida. A partir dali sempre foi mais difícil. Toda vez que eu entrava em quadra no Brasil depois daquele jogo, aquela cena vinha à minha cabeça… “será que se eu não jogar bem, o público vai me vaiar de novo?”

Esse episódio me tirou o prazer de querer jogar em casa como antes. Eu sempre tive uma pressão muito grande ao jogar em casa, o tempo inteiro. Havia uma expectativa muito grande geral em cima de mim. Por mais que eu sentisse toda essa pressão e ansiedade por jogar aqui, também fiz bons jogos. Me vêm à cabeça os jogos da Espanha e os contra Colômbia, na Copa Davis.

Mesmo que fosse um fardo jogar no Brasil, eu consegui levar isso comigo. E acredito que tive desempenhos razoavelmente bons. A experiência do circuito me ajudava a jogar partidas grandes em quadras lotadas. Para mim era mais fácil lidar com jogos difíceis. Mas os confrontos da Copa Davis me eram muito desgastantes. Sempre saía esgotado mentalmente depois de jogar pelo país. 

A carga emocional de competir em um esporte individual é muito grande. Você tem de lidar com todas as frustrações e sentimentos sozinho. Acredito que qualquer pessoa deveria fazer terapia, não só o atleta. Na minha carreira fiz trabalhos com psicólogos, psiquiatra e tudo o que você pode imaginar de terapeuta. E sigo fazendo. É importante ter alguém para você se abrir, contar as suas dificuldades, te escutar, e ter uma opinião. Quando você não dá a devida importância à saúde mental, pode-se criar um monstro muito grande para você lidar.

Nada é tão simples no tênis. Não é “só” isso, não falta “só” aquilo (para um jogador). “Á, o Thomaz joga bem, mas o mental dele não é bom” ou “putz, o Thomaz não consegue ajustar a parte mental”. Às vezes o mais difícil é isso. É o mesmo que falar que o Federer não ganha do Nadal porque não tem esquerda. Ninguém consegue ter tudo o tempo inteiro. Mas eu não vejo meus maus resultados atrelados totalmente à parte mental. Penso que é uma relação de tudo. 

O tênis é um esporte multifatorial, depende de muitos aspectos. Não dá para atribuir uma derrota a somente um desses fatores, você tem que ver o conjunto. Muitos desses fatores são difíceis de compreender. Eu jogo esse esporte há 30 anos, ninguém vai entender os momentos do jogo como quem vive do tênis. Não dá para colocar explicar tudo atribuindo resultado a um só fator. Tenta-se simplificar muito. Não dá para resumir que um tenista não consegue administrar a pressão por um break point não convertido. Às vezes não é só isso. A versão simplificada não é o que realmente acontece.

Eu ainda não me vejo aposentando por agora. Já tenho 32 anos, mais de 15 temporadas como tenista profissional. Não vejo meus resultados mais recentes atrelados à minha idade. Fisicamente, eu me sinto bem. Talvez daqui a três, quatro anos, eu comece a amadurecer essa ideia, comece a pensar no fim dessa jornada. Lógico, tudo depende dos próximos resultados. Se eu estiver jogando torneios menores, a chance de me despedir mais cedo é maior. Um retorno ao top 100 aumentaria as chances de seguir. Estou trabalhando duro para isso. Não está fácil. Nunca foi mesmo.

Crédito das fotos: Marcello Zambrana/DGW Comunicação, Cristiano Andujar/CBT e João Pires/Fotojump

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