"Sh... Silêncio.

Foto Microfone
Thiago Monteiro

Thiago Monteiro

Número 1 do Brasil, 82º colocado mundial e campeão de 5 ATP Challengers

A descoberta do poder da minha voz

“Filho, você veio de presente, de uma cegonha”.

Eu tinha nove anos quando a minha mãe me contou uma história espontânea de como eu tinha chegado à nossa família. Confesso que eu nem liguei. Recebi aquela notícia de que eu era adotado com total naturalidade. Para mim não fazia diferença. Nunca fez. Sempre tive o amor incondicional da minha família. 

Você provavelmente já viu algum meme na internet brincando sobre o fato de “ser adotado”. Muitos irmãos se marcam e fazem piada sobre isso. Eu nunca vi graça. Na verdade eu não vejo sentido mesmo. Se a família te adota ela vai te amar por igual, na mesma intensidade que todos. 

Minha mãe lutou contra um câncer de mama quando meus irmãos já eram adolescentes e ela os criou sozinha.

Foi devastador. Eu ainda não tinha nascido para dar força a ela, mas meu irmão mais velho, o Faber, me contou como foi tentar seguir em frente depois de travar uma batalha contra uma doença que te exige forças que nem mesmo você acreditava que tinha. De alguma maneira, apesar de todo o desgaste, ela encontrava forças para estar sempre com o sorriso no rosto. Não queria que os outros sofressem por ela. Sempre pregou o bem do próximo e se esforçou ao máximo para que a família tivesse as melhores condições possíveis. Essa é a dona Fátima. 

Por causa do câncer ela se aposentou por invalidez. Era servidora pública e passou em primeiro lugar no concurso. Sempre foi uma pessoa que se entrega em tudo que faz. Talvez até demais. Foi dela que eu aprendi a sempre ter comprometimento com o que eu faço: o tênis.

Tento me inspirar nela porque é um grande exemplo para me motivar. É meu ídolo. Ela quase teve um segundo câncer, mas conseguiu identificar com antecedência. Foi mais uma fase complicada. 

Nosso vínculo é muito forte. Sempre a admirei, desde pequeno. Tinha habilidade para tocar vários instrumentos, mas ouví-la no piano em especial me deixava encantado. Eu só admirava o talento dela. Ela fez até música para nós. É nostálgico voltar no tempo e lembrar da minha infância. 

Decidir contar a minha história agora é reflexo do meu processo de amadurecimento. Não é um assunto que se conta depois de um jogo durante um torneio, mas eu admito que sempre fui um cara mais fechado e venho trabalhando na minha abertura.

Minha mãe tinha 44 anos quando me adotou. Ela tinha se tratado do câncer de mama, mas estava muito mal, com sintomas de depressão. Muito devota, fazia parte de uma comunidade católica chamada Shalon. Sempre foi da vontade dela adotar um menino e, na época, ela conheceu a minha mãe biológica que estava grávida e dizia que não tinha condições de criar o filho. Nem cheguei a conhecê-la, fui adotado com horas de vida. Logo depois de dar à luz, ela me entregou para a família que é hoje… a minha família. Eu não tenho outra família, na verdade.

Na visão dela a chegada de um menino seria uma bênção, uma luz para se recuperar desse momento sombrio que ela passava. Dois anos depois ela adotou a Letícia e, depois, a Jéssica. E ela fala que adotaria cinco mais se tivesse condição. 

Mas eu vejo justamente como o contrário. Foi uma bênção de Deus não para ela, mas para mim. Tive um caminho totalmente diferente da minha vida. Por mais que a gente não fosse uma família que sobrasse muito, nunca faltou nada também. Meu irmão velho sempre se esforçava o máximo para poder proporcionar o melhor para gente. Sempre estudei em escola particular, sempre tive plano de saúde. Conseguíamos estar ali, na média.

O tênis era um esporte extremamente caro para nossa realidade e a gente passou muita dificuldade, mas nunca a ponto de passar fome ou dormir na rua. Talvez isso fosse uma realidade que eu tivesse que me encontrar caso a minha mãe biológica não tivesse tido a consciência de abrir mão de mim. Sei que pode ter sido uma dor gigante ter que abrir mão de um filho. Mas se ela fez isso pensando no futuro melhor que eu teria, as condições que eu seria criado… talvez seja um pensamento mais reconfortante. 

Nunca tive a curiosidade de conhecê-la. Não tenho motivo, na verdade, não vejo necessidade. Em determinadas fases da vida dela, minha mãe até comentava “se você quiser ir atrás, eu sei quem é, consigo identificar”. Ela me contou que eu tenho irmãos, mas eu nunca tive vontade de ir atrás. Não sei se estou errado ou certo nessa história. Você tem o direito de achar o que quiser. A sensação que eu tenho é que sou abençoado pela família que tenho. Sou grato por tudo o que aconteceu comigo, por todo o esforço que a minha mãe e família fizeram por mim. 

Aqui em casa nunca houve diferença de tratamento de filhos. Família é quem te cria e te faz sentir esse amor incondicional. Também não houve um grande questionamento ou conflito depois que entendemos que tínhamos sido frutos de adoção. Realmente passou despercebido. 

O Faber era o nosso pai desde o momento que eu, Letícia e Jéssica chegamos em casa. Ele era a nossa referência paterna porque quando nós três chegamos a minha mãe já estava separada. O pai deles se separou da nossa mãe quando ela tentava se recompor da luta contra o câncer e os meus irmãos eram adolescentes. 

No Dia dos Pais, a gente presenteava o nosso irmão. Ele sempre foi o pai da nossa família. Foi o cara que me inseriu totalmente no tênis, abria mão de poder estar vivendo a vida dele para proporcionar esse sonho que era ser tenista. O tênis era uma paixão dele e ele nos empurrou o máximo para que seguisse este caminho. Foi o que aconteceu. 

Ele tinha 26 anos e me levava desde que eu tinha 10 anos para os torneios pelo Nordeste, a Rota do Sol. Dirigia 15 horas de carro para que eu jogasse um torneio de tênis. E ainda estudava, estava terminando a faculdade. Na época, tênis nem era meu esporte preferido. Desde os quatro, cinco anos eu gostava mesmo era de futebol.

Foi o primeiro esporte que eu pratiquei porque tinha uma escolinha perto de casa. Só comecei a dividir com o tênis mesmo aos oito anos, quando me interessei vendo meu irmão fazer aula. O meu primeiro professor, Geovane Nascimento, foi fundamental para que eu gostasse logo de primeira. As aulas eram muito divertidas. Dois anos depois, aos 10, tive meu primeiro treinador competitivo, o Luciano Neri, conhecido como Paquete. Sou muito grato aos dois.

Sabe aquele garoto esforçado? Eu era assim no futebol. Tinha certo destaque, mas não tinha tanto talento como no tênis. Venci alguns troféus no juvenil pelo Nordeste e parti para uma gira de sub-14 em São Paulo. Não tinha nem ranking para jogar o principal deles: o Banana Bowl. Venci a chave do quali e fui campeão do torneio.

As minhas campanhas chamaram atenção do China, o Carlos Garcia, amigo do Larri Passos, Rafa Kuerten e do Guga. Ele viu talento em mim e acertou para um período de testes em Balneário Camboriú na Academia do Larri. Naquele momento eu decidi largar o futebol completamente.

Parecia estar em um sonho quando cheguei a Camboriú. O Guga aparentava ser meu amigo há bastante tempo, me tratou muito bem desde o primeiro contato. Ele se preparava para o último torneio da carreira, em Roland Garros 2008. Me deixou muito à vontade para treinar naquela semana, o Larri também gostou de mim e ficou combinado que eu me mudaria para Santa Catarina a partir da pré-temporada do ano seguinte.

O primeiro ano fora de casa não foi nada fácil. Senti muito o ritmo de treinos nos primeiros meses porque em Fortaleza eu não fazia preparação física. Treino pra mim era bater bola três, no máximo quatro vezes por semana. Tentava voltar para casa para passar uns dias porque a saudade era grande, mas meu irmão sempre deu um jeito de me convencer a voltar para Santa Catarina.

Seis meses depois de começar a treinar com o Larri, já tive uma oportunidade ótima. Ele me convidou para ser sparring da Daniela Hantuchova, eslovaca treinada por ele que era uma das melhores do mundo na época. Foi uma baita experiência. Ao mesmo tempo que eu gostei, fiquei esgotado com a intensidade do trabalho. Pensei que teria descanso em Fortaleza quando voltasse dos Estados Unidos. Nada disso. Quando estava voltando descobri que disputaria sete torneios em sequência: três quali de Futures no Brasil e quatro torneios juvenis no Chile. 

Naquele momento, eu queria voltar para casa, mas obedeci o que os treinadores pediram. Eu sempre fui assim. Sempre o que me mandavam, eu obedecia. Eu tinha esse receio de falar… o que será que eles pensariam de mim se falasse que “não”? Seria muito pedir para ir para casa? Hoje vejo que não. Mas eu não conseguia me abrir. Era natural para mim obedecer sem questionar.

O sonho de ser tenista sempre se manteve vivo até nos momentos mais difíceis. A viagem para o Chile foi quando realmente pensei em largar o tênis. Logo na primeira das quatro semanas, perdi na estreia do quali depois de liderar por 6/4 e 4/0. A situação ficou ainda pior quando eu não tive ranking suficiente para jogar o torneio da semana seguinte. Até ganhei um torneio de duplas depois, mas estava psicologicamente destruído daquela gira. 

Foram os piores torneios que joguei na vida, as quadras não tinham nem linha. Era um torneio no meio do nada. Ficamos numa pousada suja com todos outros jogadores, daquelas que você tem comida há mais de uma semana na geladeira. Era um frio congelante de 2°C nas piores condições possíveis. A quadra era esburacada e propícia para lesões. Nós mesmos tínhamos que passar a cal para fazer a linha porque a quadra não tinha. Tudo isso faz parte do processo. Você precisa passar por essas situações para valorizar as coisas quando a situação vai melhorando.

Quando voltei para casa daquela gira, disse ao meu irmão que ia desistir do tênis. Não queria voltar a Camboriú nem a pau. Voltei para o Sul uma última vez para me despedir do Larri. Com uma tranquilidade que me impressionou, ele disse que até o Guga já tinha passado por isso. Era um momento normal no meu primeiro ano fora de casa. Pediu apenas para que eu refletisse o que eu realmente queria para mim.

Decidi seguir. Duas semanas depois daquela conversa, fui campeão da Copa Santa Catarina, em Itajaí. Nem ranking tinha, ganhei um convite e aos 15 anos venci meu primeiro título juvenil de ITF na categoria sub-18. A conquista me trouxe a sensação de calma que eu precisava. Nunca mais tive vontade de parar.

“Mas você é do Ceará? Pô, o maior sonho do cearense é ir para São Paulo ser garçom”. É duro ouvir isso. Tenho orgulho das minhas raízes e de quem eu sou. Sou cearense, nascido e criado em Fortaleza. Sou negro. E hoje sou o melhor tenista do país. Minha família sempre me mostrou que o preconceito de qualquer tipo não tem cabimento. Você não é menor do que ninguém por causa do lugar de onde você veio ou da cor da sua pele. 

Ir para o colégio no Sul era um desafio. Eu não conhecia ninguém, era o aluno novo. E sempre que eu precisava falar, sempre que eu precisava ler um texto em voz alta, podia ouvir risadinhas ao fundo por causa do meu sotaque. Quando tentava identificar, também percebia olhares de certos colegas. Para eles podia ser só uma zoeira. Mas não era assim para mim. Eu não achava engraçado. Aquilo me marcou. 

Eu realmente pensava que não seria bem aceito nestes ambientes. Apenas tinha que me encaixar de qualquer forma. O jeito seria mudar a minha forma de falar. Foi assim que perdi muito do sotaque. Já era tímido por natureza e sempre quando ia abrir a boca vinha algum comentário ou um coro de risadas. 

Passar por aquele constrangimento me deixava inseguro e receoso no momento de formação da minha personalidade. Hoje em dia é sensacional ver um Whindersson com 40 milhões de seguidores.  A minha resposta foi me fechar.

No esporte isso nunca aconteceu, felizmente. Você se ajusta com apelidos que te chamam. Não acho que seja certo, mas não me afeta, não me machuca. Mas aos 14, 15 anos eu precisei entender o que era o preconceito contra o nordestino. Não deveria haver preconceito porque você veio de algum lugar ou pela sua cor de pele. São coisas baixas. É de uma ignorância que deveria ter ficado para trás. Somos todos iguais e a gente deveria ter todos as mesmas oportunidades.

Eu não tinha a dimensão do meu papel. O meu entendimento sobre representatividade veio neste ano. Não era algo que eu realmente compreendia. Hoje consigo perceber que posso sim ser uma inspiração para os mais jovens que se identificam comigo pela minha história, pela cor ou pelo fato de ser nordestino. Foi um processo de autoconhecimento. Hoje eu me vejo carregando essa bandeira e a responsabilidade de ser referência para que um João Lucas Reis e muitos outros meninos possam olhar para mim e acreditar em seus sonhos.

Essas referências são importantes na carreira de qualquer tenista e comigo não foi diferente. Eu pude aprender demais com muitos tenistas. Ainda na época em que eu treinava com o Larri, convivi com o Marcos Daniel, Rogerinho, Thomaz Bellucci, o André Sá, o Guga e a própria Bia. Acompanhar o profissionalismo deles e o modo como superavam as dificuldades foi fundamental para aprender com cada um deles.

Comecei neste ano o meu primeiro trabalho com psicólogo neste ano, o Marcos Silva. Sempre achei a parte mental importante, senão “a” mais importante, mas eu realmente me achava forte mentalmente porque virava os jogos. Eu treinava as partes técnicas e físicas, mas sempre tive uma dificuldade de conversar e me abrir. 

Vencer o Jo-Wilfried Tsonga no Rio Open 2016 foi um divisor de águas na minha carreira. Até aquele momento eu duvidava muito de mim mesmo, ficava me questionando se estava no caminho certo. Ele era o número 9 do mundo na época. Quando eu soube que ia enfrentar o Tsonga, fiquei focado em só passar o maior tempo possível em quadra e aproveitar minha estreia em um ATP. 

Desde a pré-temporada com o Bellucci, já percebi que poderia ser um ano diferente. Logo na primeira semana, furei o quali em Mendoza, salvando match point na última rodada. Ganhei do Rogerinho na estreia da chave, uma vitória que me marcou demais. Ele sempre foi uma das minhas referências de profissionalismo e intensidade. Sempre que treinávamos, era 6/0 ou 6/1 para ele, então o resultado me deu muita confiança.

Assim que saí do Jockey, depois do sorteio, vi um cartaz com foto gigante do Tsonga e pensei: “Como é que eu vou ganhar desse cara?”. Jogaríamos na terça à noite, mas choveu e quase todos os jogos foram adiados. Só terminou o jogo do Nadal contra o Carreño Busta, que seria antes do meu na Quadra Central.

Foi tudo muito rápido. O meu convite foi um pouco controverso porque a chave do quali tinha brasileiros mais bem ranqueados do que eu, que estaria na chave principal. Mas em janeiro eu fiz semifinal no Challenger do Rio, o meu melhor resultado até então. A boa campanha me deu a chance de disputar o Rio Open no mês seguinte, meu primeiro ATP.

E pensar que oito meses antes eu havia sofrido a lesão no joelho que me fez realmente cair a ficha de que eu precisava aproveitar a minha carreira porque nunca se sabe o dia de amanhã. Estava na última rodada do quali de um Challenger no interior da Eslováquia. O placar estava 9-8 no tiebreak do 3º set. Torci o joelho e não conseguia nem andar. Saí de maca direto para o hospital. É muito claro para mim como os tenistas brasileiros de destaque conseguem se sobressair. Você precisa se sair mais forte dos momentos mais difíceis para ter sucesso. Não há outra opção. Foi assim que superei minha lesão no joelho, em 2015.

A confiança foi fundamental na minha ascensão no circuito. Depois que eu ganhei do Tsonga, eu batia na bola de olho fechado e ela entrava. Tudo era muito novo para mim, mas agarrei aquela oportunidade e aproveitei. 

O meu jogo foi remarcado para quarta às 14h. Aquilo me deu mais confiança. Sabia que estaria muito calor por ser no Rio naquela época do ano. São condições em que gosto muito de jogar. Nem consegui dormir bem no dia anterior porque eu estava nervoso. Nervoso no bom sentido, querendo jogo. Não entrei em quadra achando que iria vencer, mas estava sacando bem demais e encaixei winners. Senti que o Tsonga começou meio frio e ganhei o primeiro set.

A partir daquele momento, joguei destemido. Precisava competir e não duvidar da vitória. O Tsonga usou a experiência, passou a jogar melhor e até ganhou o segundo set, mas eu senti que ele estava bem cansado e o jogo estava mais pra mim. Venci um top 10 na minha primeira partida de ATP, como #338 do mundo. Quando o jogo acabou, caí no chão. Uma sensação de alívio. Tudo o que eu vinha trabalhando era para ter uma vitória como aquela.

A ficha não caiu no dia. A sala de imprensa estava lotada, dei entrevista para tudo que era canal e tinha mais de 2000 mensagens nos grupos de amigos. Nem deu tempo de ler tudo, afinal no dia seguinte eu já tinha o jogo contra o Cuevas. Não era porque tinha derrotado o Tsonga que o torneio tinha acabado.

No dia seguinte, acordei um pouco desidratado. Tomei soro e nem treinei de manhã. As condições já eram totalmente diferentes. O jogo foi à noite, a quadra estava lotada, com um monte de gente que nem sabia o meu nome dois dias antes. Perdi por 7/6 e 6/3 para o Cuevas, mas foi um bom desempenho contra o campeão do torneio.

Fiz ainda quartas no Brasil Open, vencendo o Nicolás Almagro e o De la Nava, perdendo novamente para o Cuevas, agora de virada. Sim, ele foi de novo campeão. As duas semanas no Brasil me deram uma confiança muito grande para o restante do ano.

O ano seguinte foi uma nova realidade. Joguei Grand Slams pela primeira vez. Sentia uma dificuldade muito grande de superar as derrotas. Era uma tristeza sem fim perder um jogo ganhável quando estava na posição de favorito. Alcancei as quartas do Rio Open, mas bateu aquela sensação de “agora que estou aqui, não quero perder isso”. 

Deixei de ser destemido, com intenção de ganhar, e passei a entrar na maioria das partidas para não perder, duvidando muito de mim mesmo. Minha cobrança interna por resultados era muito grande. 

O Duda Matos e o João Zwetsch tentavam tirar de mim esses pensamentos sobre cobrança interna, questionamentos que o atleta naturalmente tem na carreira. É importante na relação com o treinador você conversar e conseguir passar as suas sensações. Mas eu não ajudava muito. Foi um processo que atrapalhou a minha evolução. A minha equipe estava ali para mim e eu era tão fechado que não conseguia compartilhar tudo o que eu queria. Eu não me entregava nesta parte. Eu simplesmente não conseguia me abrir, sempre tive muito medo disso. 

Me mudei para Argentina em 2018 para treinar com o Blengino. Venho tentando conversar mais. A partir do momento em que você está mais solto e aberto, isso se reflete em quadra. O trabalho psicológico vem me ajudando a ter um ano muito bom. 

Com a mudança consegui compreender o quão mal aquilo me fazia, quanta coisa eu guardava para mim mesmo. Foi como se sentir mais leve. Eu realmente quis mudar meu jeito e a minha forma de trabalhar. Aprendi muito depois que conversei com o Duda na despedida da Tennis Route. Isso se reflete dentro da quadra. Se você está mais aberto, você fica mais solto, mais leve e o resultado vem. 

Foi justamente em Buenos Aires, onde eu treino, que sofri uma das derrotas mais duras da minha carreira, para o Pedro Sousa. Antes de trabalhar com meu psicólogo, teria sido um resultado muito duro de encarar. O processo de se permitir tem muito a ver com aceitação, nós conversamos bastante sobre isso.

Já tinha vencido o Munar e o Coric e vinha treinando muito bem em Buenos Aires. Quando entramos em quadra pelas quartas de final, tanto eu quanto o Sousa sabíamos que o jogo valeria vaga na final. O Schwartzman se lesionou na vitória contra o Cuevas e não entraria em quadra no dia seguinte. Seria a primeira final de ATP, a maior campanha da carreira para ele ou para mim.

O Sousa sentiu a perna no primeiro set e passou a jogar de um jeito agressivo que eu sinceramente não esperava. Quando perdi o primeiro set, não consegui sair daquele desespero mental. Perdi o jogo. Parecia que tudo aquilo que eu havia feito na semana não valia nada naquele momento. Se fosse em outros tempos talvez eu nem conseguiria jogar Rio e Santiago na sequência. Foi muito triste. Sem desmerecer o Pedro, eu senti que era para eu estar ali quando o vi na final depois que o Schwartzman deu W/O.

O Rio Open foi logo na semana seguinte. Fiz uma ótima estreia contra o Pella, ganhei um jogo de mais de três horas que acabou à 1h da manhã. Eu realmente pedi para jogar na terça, mas não sabia da regra que os dois jogos do meu quadrante teriam de ser no mesmo dia. Pensei que só jogaria na quinta, mas ter entrado em quadra na quarta não foi um fator determinante para perder para o Balazs.

Comecei voando, fiz 6/1 no primeiro set. Faltou usar minha experiência para não me perder mentalmente no momento em que ele conseguiu colocar mais bolas na quadra e quebrou meu saque. 

O perfeccionismo também é algo que venho tentando melhorar. Naquele momento, eu quis voltar a jogar a nota 10 do primeiro set, mas uma nota 6 bastava para vencer em sets diretos. O cansaço mental atrapalhou. Não pensei assim. Venho tendo um ano bom, mas poderia estar olhando para um outro horizonte de torneios.

Percebi que ser aguerrido não bastava. Ainda tenho muito a evoluir, comecei o trabalho com o psicólogo neste ano. Eu tinha uma certa resistência. Quando eu era mais jovem sentia que quem treinava mais merecia ganhar. E você vê que não funciona assim no tênis. Como a parte técnica e física, eu passei a treinar a parte mental. Ter um mental forte não é só virar jogos. É o dia a dia também. É lidar melhor com essa cobrança excessiva, lidar com as suas frustrações, com esse perfeccionismo de se cobrar demais e a ansiedade por resultados. 

Tudo isso está muito relacionado à minha comunicação. Como eu guardava muito para mim, eu não queria e não conseguia me abrir sobre o que passava na minha cabeça. Se eu tivesse tido esse processo antes, se eu tivesse me permitido… talvez as coisas poderiam ter sido de maneira diferente. É aprender a ter essa aceitação. 

Venho sentindo muita diferença.  Percebo hoje que perdi tempo neste aspecto, mas me sinto no caminho certo, com uma equipe completa em todos os campos. Eu tinha total certeza de que seria o melhor ano da minha carreira antes da pausa.

Sempre tive uma vontade de retribuir tudo o que minha família, meu irmão e minha mãe me proporcionaram. Ajudo com as contas, plano de saúde, escola da minha sobrinha. E recentemente a gente conseguiu comprar um terreno para a minha mãe. Meu irmão foi mostrar o lote e ela se apaixonou à primeira vista: “é o lugar que eu quero para a minha vida”. A gente fez todo o esforço para levantar uma casa para minha mãe. Ela mora desde sempre no mesmo apartamento e está cansada daqui, busca outro lugar para estar mais feliz. 

Ainda estamos pagando as parcelas da propriedade, mas quem sabe não conseguimos construir a casa em breve? Seria uma grande realização ajudar a proporcionar isso para ela. É muito gratificante. Não foi uma vida fácil. Ela ainda teve problemas de saúde, diabete e depressão, a perda do pai… É uma guerreira em todos os aspectos.

Não só coisas materiais. Consegui levar minha mãe para o Rio Open de 2017. Minha família toda foi e viu meu jogo lá pela primeira vez ao vivo. Por mais que ela não entenda nada, estar lá me passava uma sensação de energia extra, um impulso, uma motivação a mais. Às vezes eu olhava para ela com os olhos quase fechados, mas mesmo assim a dona Fátima estava lá me assistindo na Quadra Central do Rio de Janeiro, maior ATP da América do Sul. Eu só estava ali por causa dela. É até difícil de explicar o que eu sentia.

Quando a minha mãe está bem, eu me sinto bem, recarregado para a próxima jornada que vier. Sem dúvidas ainda vão vir várias pela frente. Mas eu já me sinto na sensação de ter sido muito feliz por poder passar essa felicidade para ela possa. Me sinto feliz por poder realizar sonhos, seja viajar, visitar a irmã no Rio, em Araruama ou conhecer o Cristo Redentor. É muito satisfatório porque eu vejo que ela fica bem e faz tudo valer a pena.

Um dos meus objetivos é aumentar a visibilidade e a integração na minha região. O Nordeste tem grandes talentos, mas ainda não conseguimos integrar bastante as promessas daqui. Quero tentar proporcionar as mesmas oportunidades que eu tive para a meninada daqui, mesmo que também não tenham as melhores condições para seguir. 

Espero que outros possam ter a mesma chance que eu tive de vivenciar esse sonho no tênis. Ajudar a realizar isso seria a minha conquista mais importante.

Créditos: Arquivo pessoal, ATP, Cristiano Andújar/CBT e João Pires/Fotojump

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