"Sh... Silêncio.

Foto Microfone
Orlando Luz

Orlando Luz

Número 1 do mundo e campeão de duplas em Wimbledon como juvenil

A luz que não se apaga

Eu estava a um passo de parar de jogar tênis.

Tinha 19 anos. Meu ranking já tinha ido para o espaço e eu não estava nem no top 500. Olhei para o placar. No intervalo, botei a toalha no rosto e as lágrimas começaram a escorrer no meu rosto. Naquele momento eu não sabia se conseguiria jogar tênis novamente. 

Perdia por 6/4 e 3/2 na estreia do Future de São Paulo. Meu jogo estava marcado para 15h, mas foi chovendo, chovendo… a gente entrou em quadra às 19h. Estava escuro. E eu já sabia que não conseguiria jogar. Veio então o nervosismo. Eu não queria desistir. 

Perdi por duplo 6/4 fazendo o maior esforço do mundo para colocar as bolas na quadra. Tentei sair de cabeça erguida, mas muita gente percebeu que não tinha condição de ter entrado em quadra. Mas eu não quis revelar o meu problema. Não queria que soasse como desculpa. Quando cheguei em casa, liguei para o meu pai e falei que estava a um passo de parar de jogar tênis. 

Passei a noite em claro porque eu fiquei pensando… se eu não enxergo a bola, como eu vou jogar? Sentia essa dor, essa impotência. Eu só desabei. Lembro até hoje daquela semana, daquele jogo. Nunca fui de compartilhar meus dias ruins. Sempre guardei as coisas para mim. Naquele dia eu não aguentei. Precisei desabafar com as pessoas mais próximas. 

Sabia que não tinha condições de jogar em alto nível daquele jeito. Cogitei por várias semanas parar de jogar tênis de uma vez. Não sabia se um dia eu voltaria a enxergar direito para competir. Eu estava quase 600 do mundo e não conseguia competir naquele nível. Eu literalmente não via como chegar lá. 

Tudo começou quando fui fazer meu exame oftalmológico para tirar a carteira de motorista. Eu não enxerguei nada. O médico pedia para eu dizer as letras e eu errava tudo. Ele aumentou, eu não acertei. Aumentou de novo, nada feito. Na quarta e última tentativa, ele disse: “Cara, tá no limite. Tem cinco letras, você precisa acertar uma letra para te passar.” Sem enxergar, pensei: “Vou chutar A porque geralmente tem A”. 

Não tinha. O examinador me olhou e falou: “Você precisa de um médico já”. Fui ao oftalmologista. Ele não queria correr com o diagnóstico, mas acreditava que eu tinha um problema grave chamado ceratocone, que altera o formato circular da córnea. A cirurgia era urgente. Eu tinha no máximo dois meses para fazer a operação  porque se não fizesse teria que fazer transplante de córnea. Ouvir aquilo me deixou desesperado. Fiquei com muito medo, mas operar era a minha única opção.

Comecei a me dar conta que tinha um problema na vista no juvenil. Reclamava um pouco, mas ninguém dava bola. Geralmente eu falava só após as derrotas. Quando eu vencia, eu pensava “tudo bem, eu ganhei”. Mas quando eu perdia…

Era muito frustrante porque eu dizia para meus treinadores e meu pai que a bola vinha rápida, que eu não estava enxergando direito. Mas soava como uma desculpa até porque tive poucas derrotas no juvenil e fui número 1 do mundo. Ninguém realmente entendia que eu tinha dificuldade de enxergar.

Passei a guardar essa informação para mim. Se meus treinadores e meu pai entendiam como desculpa, o que as outras pessoas iriam pensar de mim?

A cirurgia foi uma das piores sensações da minha vida. Durou meia hora em cada olho e eu estava acordado o tempo todo. Eu vi toda operação sendo feita. O médico raspou a película criada pelo ceratocone e aplicou a vitamina que evita que o tecido cresça de novo. 

Fiquei três dias sem poder enxergar na recuperação, em casa. Qualquer claridade parecia que estava com a lanterna dentro do meu olho. Meu pai precisou colocar fita isolante no stand-by da TV. Parecia que aquele pontinho vermelho era uma bola de fogo.

O médico disse que meu olho demoraria seis meses para se recuperar totalmente da cirurgia, mas eu não queria ficar esse tempo todo sem competir. Voltei a treinar de leve depois de quinze dias. Dois meses e meio depois, já estava nos torneios. Aquele segundo semestre de 2017 foi horrível. Eu não tinha condições de competir sem lentes.

Foi justamente neste período que eu disputei o Future de São Paulo e pensei em parar. Foi um momento de puro desespero. Eu sentia essa frustração de não estar onde eu achava que estaria nesta etapa da minha vida. Não foi a derrota em si. Sentia que não teria condição de jogar mais tênis em alto nível.

Os seis meses se passaram e, em 2018, fui treinar na Espanha. Lá eu comecei a usar uma lente de vidro no meu olho direito. Chegava a ir no oftalmologista seis vezes por semana.  O primeiro ano foi bem duro, eu não aguentava terminar o jogo com a lente. Acabava o jogo e antes de sair da quadra eu precisava tirar a lente porque meu olho estava irritado e dolorido. Se o jogo era à noite ou em quadra coberta, minhas chances desabavam. Já entrava em quadra sabendo disso.

A gota d’água foi em junho do ano passado. Choveu o dia todo e o meu jogo contra o Igor Marcondes foi para quadra coberta. Foi bem complicado. Pensei em desistir porque sabia que não conseguiria competir, mas não quis me retirar. Perdi por 6/3 e 6/4 lutando para colocar a bola em quadra.

Ali foi quando decidi parar até trocar a lente do olho direito e achar uma para o esquerdo. O pai do João Menezes resolveu o primeiro problema. Passei a usar uma lente gelatinosa no olho direito. A do esquerdo é um pouco mais dura, foi o doutor Eber, que faz aula com meu pai, quem sugeriu.

Depois das novas lentes, minha confiança aumentou demais e os resultados melhoraram muito de um ano para cá. Perdi para adversários melhores. Eles mereceram, foram melhores que eu. Agora tenho 80% da visão do olho direito e 75% do esquerdo na claridade. Mesmo com a capacidade caindo para uns 50% à noite, me sinto bem mais confiante, ainda mais competindo na Europa, onde escurece bem tarde. Não existe cura, mas tenho a melhor visão que a medicina pode proporcionar no momento.

Comecei a jogar tênis desde que consegui ter força para levantar uma raquete. Meu pai também é Orlando. Como estávamos sempre juntos, ele era o Orlandão e eu, o Orlandinho. O Orlandão foi jogador e treinador, então não tinha muito para onde correr. Com cinco anos eu joguei o meu primeiro torneio com duas mãos nos dois lados porque eu não tinha força. Venci a categoria 10 anos. Tinha o horário da creche e depois o dia inteiro era no clube. 

Sou de Carazinho, uma cidade muito pequena no interior do Rio Grande do Sul. Não tinha muito o que fazer, então o esporte era a minha salvação. O tênis me levou a lugares que nunca imaginei. A decisão de jogar tênis foi no instinto. Tinha um torneio de tênis e futebol no mesmo dia.

Escolhi o tênis por ser um esporte individual. Pesou bastante o fato do gosto da vitória. Quando eu vencia, a vitória era só minha, eu fiz por merecer. Se eu perdia, sabia que era um erro meu, que teria de trabalhar.

Orlandinho, o novo Guga. O que mais me marcou na época de juvenil foi ter sido comparado constantemente com o Guga. Virou um aposto, um parâmetro. Nem lembro quantos anos eu tinha quando ouvi a comparação pela primeira vez. 

Vejo isso repetindo com outros tenistas. Para mim, é o maior erro possível. Não é uma pressão positiva, não te incentiva. Por um lado eu tentava pensar: “Pô, se eles estão falando e pensando que eu posso ser o novo Guga é porque acreditam em mim”. Ao mesmo tempo, o brasileiro é muito carente desse novo Guga. Só que ele é extraordinário. Existiu e para sempre vai existir apenas um Guga.

Estava entre os 450 do mundo quando tinha 17 anos. Era número 1 juvenil. Estava no caminho certo em 2015. Mas os resultados no profissional não vieram tão rápido. Não esperava a minha transição que demoraria tanto. Fiquei estacionado nos Futures e percebi em 2016 que o buraco no profissional era mais embaixo. Bem mais embaixo.

Ficaram em cima de mim porque acreditavam que eu já estava encaminhado. Muita gente já me cravava no top 100 com 18 anos porque eu alcancei o topo do juvenil aos 16. Mas é muito diferente. 

Você começa o profissional do zero. Não larguei na frente por ser número 1 juvenil. Não havia grandes vantagens. Comecei a perder para jogadores que vencia no sub-18. Ganhava deles no juvenil numa semana e na seguinte, no torneio profissional, perdia. Eles jogavam mais solto que eu. Sentia uma pressão, uma tensão que me deixava totalmente preso em quadra. O resultado foi que joguei mal meu primeiro ano como profissional. Uma péssima largada.

Na Espanha, EUA, França e outros países de tradição a gente vê jogadores fazendo a mesma coisa que eu fiz como algo normal. Talvez não normal, mas não é algo extraordinário. Porque tem muito jogador do mesmo nível. Aqui só havia praticamente eu, então a pressão ficou em cima de mim. A minha sensação era de que todo mundo esperava que minha ascensão no profissional seria natural. E eu também comecei a achar que quando chegasse no profissional seriam dois pulos para estar lá na frente. E é óbvio que não foi assim.

Antes de sair para os torneios, eu traçava sempre objetivos. Quantos pontos eu somar em qual ranking eu queria voltar da gira. Então, se eu não fazia resultado na primeira semana, já começava a ficar apertada a meta. E aí passava a me cobrar mais. No torneio seguinte, entrava ainda mais pressionado. Eu não estava acostumado a lidar com as derrotas.

Meu pai sempre me alertou e me preparou para os resultados negativos. Mas, sendo bem honesto, não tinha como eu estar pronto. Fui campeão em todas as categorias de base: 12, 14, 16, 18 anos… tive uma trajetória de sequência de vitórias no juvenil. Eu não sabia o que era perder. As derrotas no início do profissional me deixavam sempre com aquela sensação de “o que está acontecendo comigo?”

O maior obstáculo do juvenil ITF aconteceu em 2011, eu tinha 13 anos. Mesmo tão jovem, eu já jogava torneios de premiação contra adultos segunda classe no interior do Rio Grande do Sul. Fazia um esforço para o qual eu não estava preparado na época. Isso causou fraturas por estresse nas vértebras L4 e L5 porque tive espondilólise, que é o escorregamento das vértebras, quando uma deslizou sobre a outra.

Uma das vértebras já estava até cicatrizada. Tinha fraturado a L4 em março, no Paraguai. Não fiz exames na época porque o tratamento com massagem e remédios me aliviou naquela gira. Para ilustrar meu desempenho no juvenil, fui campeão do Asunción Bowl, Banana Bowl e Copa Gerdau sub-14 mesmo com fratura. Fiquei três meses parado, sem poder fazer movimento brusco algum. Só voltei a jogar em 2012. Já fiz duas finais de ITF sub-18, ainda com 14 anos.

Minha família é de origem humilde. O Orlando pai tem oito irmãos e ele é o mais velho, começou a trabalhar cedo. Ninguém praticava esportes. Mas ele morava atrás de um clube de tênis, começou a ver e pulava a cerca para bater no paredão. 

Usava uma tábua de carne para bater a bola e brincava o dia inteiro lá quando era moleque. Ele não tinha condição de ser sócio do clube ou de ter uma raquete, mesmo que velha. Construíram um muro e ele não se importou. Seguiu pulando para brincar no paredão até que um dia um professor perguntou se ele queria ser boleiro e se ofereceu a ensinar tênis para ele. Meu pai prontamente aceitou. Passou a ganhar um salário para ajudar em casa e a entrar no clube pela porta da frente.

Aos poucos, aprendeu a dar aula. Com 16 anos, ele já estava trabalhando como professor e dando aula o dia inteiro. Tentou ser profissional e chegou até a ganhar de alguns grandes nomes como Marcos Daniel, mas nunca teve condição de viajar. Ele jogava os torneios de premiação próximos porque só podia ir de ônibus. Não só de tênis, mas de padel. Ele tentava juntar dinheiro para poder disputar torneios de tênis, mas virou inviável. 

O sonho de ser profissional foi ficando cada vez mais distante. Ele passou a focar nas aulas para poder sustentar a família, que nunca foi bem de vida e precisava ajudar os pais e os irmãos.

Quando eu nasci, meus pais não tinham nada. Meu pai deu o carro que ele tinha para comprar um terreno onde ele construiu a casa. Então a gente andava para chegar no clube às 7h30. Saía de casa às 6h, caminhando, até em dia que estava -2ºC. Eu lembro de tudo isso. E isso me fortalece a continuar trabalhando. 

A nossa casinha tinha um cômodo. Era cama, fogão, geladeira… tudo no mesmo quadrado. Casa pequena que foi crescendo aos poucos. A cada dinheiro, ele comprava mais tijolo, mais cimento. Eu mesmo com 12 anos puxava carrinho e ajudava a fazer cimento. A gente não tinha como pagar alguém. 

Meu pai comprava material com o pouco do dinheiro que sobrava. Minha mãe também tem muitos irmãos, são 12. Família humilde, muito grande, que se ajuda. Meus pais nunca passaram fome, mas não foi uma vida fácil. Ele trabalhou em lavoura, capinando quando era novinho. Não tive vida de luxo, mas nunca passei fome ou frio graças a eles. Fomos etapa por etapa. 

Ele é o meu maior incentivador. Nunca me obrigou, mas me treinava porque eu pedia. Ele só queria que eu tivesse um futuro bom. Que eu fizesse uma faculdade que ele não fez, que ninguém da nossa família fez. Se eu fosse para o universitário já seria uma grande realização. Esse era o pensamento dele. Aos 11 anos, eu pedi para ele me treinar para ser profissional. Claro, ele se espantou. A gente teve essa relação de pai-filho e treinador-jogador com muito respeito até eu me mudar para o Larri, na reta final do juvenil.

Em 2015, o meu penúltimo ano como juvenil foi o de melhores resultados nas simples. Muita gente pergunta se eu era um jogador melhor. A diferença é que eu entrava em quadra solto, sem pressão. Era mais novo, jogava contra mais velhos e eles sentiam a pressão de enfrentar um moleque do juvenil. Eu não tinha nada a perder. Foi assim que me tornei o brasileiro mais jovem a alcançar a semi de um Challenger, em Santos. 

Eu não pensava durante os jogos naquela época. Salvei até match point dando winner. Simplesmente jogava no instinto. Depois desses resultados, voltei a jogar juvenil de novo. Talvez devesse ter ido direto para o profissional. Mas logo depois descobri o problema no meu olho. Não tinha como competir. Durante o dia eu também tinha 20% da visão de uma pessoa normal. Tudo isso foi cada vez piorando mais. Cada vez eu duvidava mais. Eu dependia das condições do dia para jogar bem. Até problema com o sol eu tinha – não podia estar muito forte. Tinha que estar o clima perfeito no meu dia perfeito para fazer um bom jogo. 

Hoje eu sigo me botando pressão, mas tentando transformar isso de modo que me impulsione. Eu era muito novo. Eu via jogadores da minha idade ou um pouco mais velhos se metendo no top 200, no top 100 e eu queria estar lá. Só que eles estavam mais prontos de corpo, de cabeça. Eles já tinham amadurecido para chegar lá. Eu não estava fisicamente pronto, não tinha amadurecido. Eu fiquei com a sensação de que cada vez mais estava ficando para trás. E pensava: “será que eu não consigo ir mais longe?”. Hoje eu tento canalizar isso para treinar e melhorar fisicamente, mentalmente e tenisticamente. 

Está sendo um processo mais lento do que todo mundo imaginava, incluindo eu mesmo. Também perdi dois anos por causa do problema de visão. Se eu pudesse voltar dois anos e tivesse o meu ranking agora… mas não tem como saber. Não sei se teria amadurecido na hora certa. Hoje eu tento manter a calma. Todo mundo tem seu tempo. Parece clichê e muita gente fala isso, mas quantos jogadores não chegaram ao auge com 27, 28 e não 20? 

Hoje, aos 22, eu entro em quadra sabendo que cada jogo vale muito. Estou buscando os Grand Slams de simples e duplas. Uma semana pode mudar a minha carreira. E eu acredito que estou a um resultado de jogar os qualis de Slam. E isso me deixa apreensivo. Não dá para jogar tão solto como era antes. É a grande diferença para o Orlandinho de 17 anos. Não é que eu jogasse melhor ou pior. Naquela época eu atacava mais. Hoje eu sou mais sólido. Quando iniciei o profissional era só somar e subir. Hoje se eu ganho duas rodadas praticamente nem somo. Não dá para jogar do mesmo jeito. É impossível.

Quando você começa no circuito você vai para Tunísia, Turquia, Egito… e é só você e seu treinador. Não é como um Future no Brasil. Não tem uma alma assistindo. A estrutura é muito ruim. É quase um choque de realidade. E eu senti isso. Mas a maior diferença para mim é o fato de ser sul-americano. 

Existe uma dificuldade ainda maior na transição quando você é da América do Sul. A quantidade de torneios, a diferença de condições nas competições do Brasil para Argentina ou Equador, por exemplo. É tudo muito distante, muito distinto.

Eu percebi isso quando fui morar na Europa por dois anos. Se eu pudesse, teria ido antes para Europa. Foi lá que eu amadureci e aprendi a jogar tênis de verdade. Antes o Orlandinho batia na bola. Lá, o Orlando virou um tenista competitivo.

Você treina com gente de alto nível por lá todo santo dia. Não existe guerra entre academias. Não existe isso de “você não treina aqui” ou “a gente não pode treinar lá”. É um intercâmbio de academias e clubes tão intenso que é impossível você não evoluir. 

Isso além da facilidade de ter uma base perto dos torneios. Se você joga um torneio, perde nas quartas de final na quinta-feira, você pega um trem e está em casa à noite. Treina sexta, sábado e domingo, descansa, come bem, tem seu físico, treinador e toda a estrutura. É menor a chance de lesionar. Você não exige tanto do seu físico ou da sua cabeça. Até a chance de se lesionar é menor. 

Foi na Europa que eu evoluí, que eu amadureci, que aprendi que cada jogo é diferente. O Leo Azevedo botou isso na minha cabeça em Barcelona. Ele é um cara muito sério, lê livros, gosta de papel, de escrever. Tinha um jeito de trabalhar dele e queria abrir minha cabeça e do Felipe Meligeni.

Foi difícil no começo, mas aprendi a jogar com ele. Foi onde realmente evoluí. Ele assumiu a carga de treinar eu e Felipe, tinha planos de ranking e resultados, mas sabia que precisaria de tempo. Queria trabalhar a gente do zero para ser do jeito dele. Era mais uma relação técnico-jogador, não tanto de amizade. 

Quando eu cheguei lá, trabalhei muito com o Francis Roig na academia. O cara é o treinador do Nadal há anos. Precisa falar mais? Logo de primeira ele me disse “você não sabe se movimentar direito na quadra”. E fiquei meio sem entender… como assim?! Eu já tinha 20 anos. Já tinha jogado juvenil. E ele me mostrou. Você não precisa correr e sim caminhar para bola. Foram várias questões específicas que trabalhei neste tempo em Barcelona e que levo para minha vida. 

Ele me ensinou basicamente coisas que faz com o Nadal. Viaja tanto com o Nadal porque treina realmente o específico, a parte técnica. Ouvi várias histórias sobre como o Nadal é tão viciado em tênis que mesmo quando davam folga para ele de três dias, ele ficava um dia fora e já queria voltar e treinar. É um fissurado. O Roig me mostrou que tem que estar no seu sangue. Você tem que querer muito.

Espero ter outras oportunidades dessa que a CBT me proporcionou. Voltei para o Brasil neste ano. Eu amadureci e a ADK também mudou o plano de treino. 

Se eu pudesse voltar no tempo e mudar algo na minha transição ao profissional, com certeza teria feito faculdade nos Estados Unidos. Não digo que teria concluído o curso, mas acho que ficar lá por um ou dois anos teria tirado a pressão que eu tinha por resultados e também minha autocobrança.

Ná época em que eu terminei o Ensino Médio, era número 1 juvenil. O caminho a seguir parecia óbvio, muito porque eu e os tenistas da minha geração achávamos que ir para a faculdade era abandonar o tênis. Hoje vejo que eu estava totalmente errado. Os tenistas das universidades americanas têm bem mais recursos do que quem joga future. Banheira de gelo para recuperação, fisioterapia, trabalho em equipe com um técnico específico… São várias vantagens.

Essa é a principal autocrítica que faço. O Orlandão sempre quis que eu fizesse faculdade, algo que ninguém da nossa família conseguiu concluir ainda. Eu tinha a opção das universidades e poderia ter escolhido  uma que me ajudasse a manter o ranking profissional disputando futures e Challengers por perto. Mas o profissional me parecia uma etapa mais natural para mim. 

Mantenho meus objetivos que tenho desde que tracei quando era o Orlandinho. Quero participar todos os Grand Slams, entrar no top 100 e me manter lá para ter uma vida mais estável. Espero chegar no top 50 de duplas. 

Meus pais apostaram tudo o que tinham em mim. Tudo mesmo. Fosse o carro, o dinheiro guardado para comer algo melhor. Eles nunca mediram esforços. Meu maior objetivo é devolver isso para eles. 

Eu cresci e amadureci. Agora quero retribuir e permitir que eles curtissem a vida descansados e tranquilos, sem qualquer preocupação depois de tudo o que fizeram por mim. Tenha certeza de que vou me esforçar o máximo para proporcionar a  eles a recompensa que tanto merecem. 

Agora não mais como Orlandinho, mas de Orlando para Orlando. De filho para pai.

Foto: Arquivo Pessoal, Micheli Santos, Ricardo Pereira Junior, João Pires/Fotojump;

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