"Sh... Silêncio.

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Natália Mayara

Natália Mayara

Campeã parapan-americana, primeira tenista brasileira a disputar a Paralimpíada e número 13 do mundo em 2017

A história de uma sobrevivente

Sou agradecida por tudo que aconteceu comigo. Tudo que passei me trouxe para onde estou hoje.

26 de setembro de 1996, eu tinha dois anos e três meses.

Minha mãe me levou para o hospital para fazer um check-up geral. Eu tinha uma alergia no pé e ela estava preocupada. Fomos de ônibus. Na saída, a gente tinha duas opções. Eu lembro dela falando que uma das opções era atravessar a rodovia. Era a mais perigosa, precisava atravessar a pista, e chegaríamos mais rápido em casa. A gente foi para a parada onde precisaríamos pegar dois ônibus mesmo. Quando estávamos no ponto de ônibus, minha mãe me colocou no chão para pegar o passe de ônibus porque ele estava chegando.

O ônibus que estava vindo veio em cima de mim. O motorista estava dirigindo em alta velocidade, tentou frear bruscamente na para de ônibus. Ele perdeu o controle e subiu na calçada.

O choque me lançou cerca de 200 metros para frente e ele foi tentar fugir. Foi o maior problema. O motorista tentou fugir e passou em cima de mim. Eu fiquei presa na roda e ele dirigiu comigo por cerca de 250 metros. Os passageiros resolveram ir para cima do motorista. Só então, quase meio quilômetro depois de me atropelar, o ônibus parou. O motorista desceu do ônibus e saiu correndo. 

A minha mãe entrou em desespero imediatamente. Imagina uma mãe ver a filha presa em uma roda de ônibus, sendo arrastada. A primeira coisa que veio à mente dela foi se jogar na frente do primeiro carro que tivesse vindo. Ela realmente achou que era o fim. Por algum motivo, naquele momento, ela sentiu uma força maior dentro de si. Como se alguém tivesse botado a mão no ombro dela e tivesse falado: “Calma, vai ficar tudo bem. Ela está viva. Ela vai sobreviver”. A partir daquele momento, ela teve forças para seguir em frente. Nunca mais ela se questionou, nem por um momento. Ela sabia que eu ia sobreviver. 

Tudo isso aconteceu em minutos. E eu não apaguei em momento algum. Mesmo pálida e sonolenta, resisti. Ninguém consegue entender como uma menina de 2 anos e meio conseguiu permanecer firme naquelas circunstâncias. Perder a consciência poderia ter sido fatal.

Embaixo da roda, eu gritava para minha mãe me tirar de lá. Quem presenciou a cena tentou levantar o ônibus para me tirar debaixo e conseguir me levar de volta para dentro do hospital. 

Fui levada para o hospital e queriam me levar imediatamente para sala de cirurgia. Porque não havia opção. As minhas pernas praticamente já tinham sido amputadas. Até que apareceu um anjo. Um médico saiu da sala de cirurgia e falou para os meus pais “se eu fosse vocês, tiraria a minha filha daqui agora”. O hospital não tinha estrutura suficiente para o meu caso. Dificilmente eu sobreviveria à cirurgia porque precisaria de transfusão de sangue antes de qualquer procedimento. Eu tinha perdido muito sangue. E eles não tinham como fazer lá. 

Eu tinha 2% de chance de vida. O tempo de socorro foi muito rápido, mas tive traumatismo craniano. Minhas duas pernas foram amputadas. Tenho até hoje os laudos do IML que mostram que quando eu cheguei ao hospital a chance de eu sobreviver era de duas em cada 100 casos nas circunstâncias que eu me encontrava.

Meus pais ouviram. Eles correram atrás de outro hospital e conseguiram o apoio do Hospital Português. Fui transferida e imediatamente encaminhada para sala de cirurgia. Lá eu recebi a transfusão de sangue e os médicos começaram a operar um milagre. 

Fiquei no hospital por meses e tive que fazer cirurgia plástica na perna. A gente não tinha dinheiro para o tratamento e tudo era muito  caro. Felizmente fui transferida para outro hospital onde eu fiz a minha cirurgia de amputação. Deu tudo certo. Eu sobrevivi. 

O desafio seguinte era conseguir doações e benfeitores. Comecei a ir para a AACD para fazer a restauração. Iniciei a fisioterapia, a introdução às próteses, tentar aprender a andar, fortalecer os membros. Meus pais sempre quiseram o melhor para mim e eles sabiam que a referência na área de reabilitação no Brasil é o SARAH, em Brasília, que ficava a cerca de 2.200km de Recife. Entrei na fila, um processo como se fosse o SUS mais organizado.

Meu pai era segurança na fábrica da Coral e minha mãe não trabalhava para cuidar de mim. Os custos hospitalares só aumentavam e meu pai vendeu tudo o que a gente tinha: mesa, geladeira, televisão… tudo! A gente morou em um apartamento pequeno, alugado, que só tinha uma espuma amarela que servia como um colchão. Sem condições, nos mudamos para o apartamento de minha avó. 

Vivíamos uma vida humilde. Ela já morava num apartamento de dois quartos com minha tia, meu tio, meu primo, mas nos receberam de braços abertos. Era minúsculo para tanta gente, mas pelo menos lá eu tinha uma cama. Ficava todo mundo apertado, mas tinha o básico: uma televisão, uma geladeira, um fogão. Era o suficiente. 

O apartamento era na Companhia de Habitação Popular (COHAB) de Recife, no segundo andar. Infelizmente não tínhamos condições de nos mudar. Não tinha elevador. Quando meu acidente aconteceu, minha avó já morava lá em cima, então tive de me adaptar. Aprendi a subir a escada no chão mesmo, até hoje faço isso se for preciso. Eu me arrastava pela escada e minha mãe levava minha cadeira para cima e toda vez que eu subia ou descia a gente tinha que fazer isso.

Eu mal tinha acabado de aprender a andar antes do acidente. Depois, precisei aprender a andar de novo com as próteses. Enquanto isso acontecia, o processo contra a companhia se arrastava pela Justiça. 

A luta contra a empresa foi desgastante demais. A repercussão do caso nos maiores canais de Recife contavam a minha história e condenavam a empresa pela falta de respeito de me negar o pagamento a que tínhamos direito. Eles não queriam assumir a culpa de jeito algum. 

O motorista nunca entrou em contato, nunca pediu desculpas. Pelo contrário. A companhia de ônibus e ele tentavam me culpar. Eles tentaram alegar que eu entrei na pista, andando. Isso que mais me deixou chateada. Tive de provar que eu não fui culpada, que era eles que mentiam. Tudo isso porque eles não queriam dar o suporte à minha família.

Somos de origem simples. E todo o custo era muito alto. O processo se enrolou por anos e só ganhamos uma indenização quase seis anos depois. O motorista não foi preso, ele praticamente se livrou. A companhia demitiu ele e não queria nos indenizar. Não aconteceu quase nada, mas eu não desejo nada de mal a ele. A indenização ficou em cerca de R$ 50 mil reais, uma indenização ridícula, nem perto do que se esperava. Mas a quantia foi o suficiente para buscarmos uma nova vida em Brasília, onde eu continuava a fazer o tratamento: a adaptação às próteses, as cirurgias, a fisioterapia e a hidroterapia..

Meu pai e minha mãe conseguiram. No início, tentamos enviar carta para as companhias aéreas porque não tínhamos dinheiro para pagar as passagens. E conseguimos. Precisava fazer check-ups por conta da amputação, que é perto da área do joelho. Ainda tenho a patela e isso significa que a estrutura óssea da minha perna crescia até os 16 anos. Todo ano eu precisava operar para cortar o osso que crescia, no SARAH. Todas as vezes que fomos conseguimos passagem e hospedagem graças à dedicação do meu pai. A gente não tinha condição financeira alguma de sustentar tudo aquilo. A única maneira viável era se mudar para Brasília.

Quando eu fui morar lá, aos 8 anos, não conhecia o esporte. Não tinha ninguém da minha família que praticava. Isso mudou aos 12 anos, no dia em que eu e minha mãe encontramos no ônibus um homem que trabalhava na CETEFE (Associação de Centro de Treinamento de Educação Física Especial). Ele nos convidou, deixando o contato de lá.  No início relutei. Estava estudando e não tinha interesse em esporte. Até que um dia resolvi conhecer a CETEFE e aquilo me encantou.

Era muito diferente para mim porque só tinha feito hidroterapia. A natação era só para reabilitação. Sempre me destaquei, inclusive competindo contra pessoas sem deficiência, no Sesi de Brasília. Aos 14 anos, fui campeã mundial juvenil de natação paralímpica em Nova Jérsei, nos Estados Unidos. Foi uma experiência que eu nunca vou esquecer, eu lembro de tudo, de tudo. Disputei três provas e ganhei uma medalha de ouro e duas de prata. Aquele momento expandiu meu mundo.

Mas natação nunca foi minha paixão e isso era perceptível para as pessoas. Durante o Mundial, um dos técnicos me disse: “Eu consigo ver em você que isso não é que você quer fazer”. E a quadra de tênis ficava ao lado da piscina do CETEFE. Eu sempre parava e ficava assistindo quando não estava nadando.

Tudo mudou no dia em que o técnico me convidou para fazer um teste. Aceitei e foi amor à primeira vista, ou melhor, raquetada. Depois de alguns meses me dividindo entre natação e tênis, decidi que seria tenista profissional, ainda aos 14 anos. Foi uma loucura pra mim e também para o Anderson, meu técnico, que acreditou em mim desde o início.

Foi muito, muito treino. Não consigo nem explicar, mas quatro anos depois, aos 18, eu já disputei a Paralimpíada de Londres, em 2012. Eu não fazia ideia que conseguiria fazer isso tão cedo. Minha programação era a de que a minha primeira Paralimpíada seria a Rio 2016, para aprender. A próxima, de Tóquio 2020, seria para buscar uma medalha. Só que eu adicionei mais uma neste caminho.

O plano de disputar minha terceira Paralimpíada em Tóquio mudou radicalmente ano passado, quando eu perdi o apoio do Comitê Paralímpico Brasileiro. Eu perdi minha Bolsa Atleta. 

Recebia a Bolsa Pódio, que tem valor mais alto, para atletas que têm chance de medalha. E eu me mudei para a Flórida em 2018 para investir na minha carreira com esse dinheiro. Até o dia em que recebi a informação do Comitê Paralímpico Brasileiro de que, devido a cortes de Governo, a Bolsa Pódio seria cancelada. Nem tive nem tempo de fazer o requerimento da Bolsa Paralímpica porque só poderia receber uma ou outra. O prazo de solicitação já tinha expirado quando me avisaram, então fiquei sem qualquer uma das duas.

Foi a pior coisa que podia ter acontecido. Tirou meu chão, de verdade. Porque foi no momento que eu estava investindo tudo da minha vida no tênis, em uma das melhores fases da minha vida, quase ganhando da número 2 do mundo, fazendo 3 sets com ela, assim como contra a número 5 do mundo, ganhando jogos inacreditáveis para mim. Eu mirava o top 10 e hoje nem estou mais no ranking. 

Eu não tenho o que fazer. Não tenho patrocínio, não tenho como sobreviver no circuito. Sem trabalhar, não tenho como pagar para jogar tênis… eu não tenho o que fazer agora. Fiquei completamente perdida. Quando perdi a Bolsa, eu já contava com o que ia receber porque eu já tinha sido aprovada. A notícia me pegou muito de surpresa. Naquele momento, estávamos meu técnico e eu nos Estados Unidos, sem conseguir pagar nada. 

Sem dinheiro para continuar jogando tênis eu tive que me virar, fazer o que eu sabia fazer. E isso infelizmente me desviou do tênis. 

Muita gente me pergunta nas redes sociais o que aconteceu, se eu parei de jogar tênis… e eu sinceramente não sei como responder. Porque preciso de apoio, ter condições financeiras para poder viver, para pagar minhas viagens e conseguir arcar um técnico. 

Hoje eu não sei como jogar. Se viajo no circuito, não trabalho. Então, eu não consigo pagar minhas contas, o aluguel, o básico. Se eu treino, tenho de pagar para treinar e hoje isso é fora da minha realidade.  Estou há 11 meses sem jogar somente por causa da questão financeira. Para pagar as contas, eu trabalho como fotógrafa e faço edição de fotos e vídeos. Treino de vez em quando porque moro com uma amiga minha que joga tênis, mas eu não tenho técnico, não tenho nada aqui, não.

Ainda sonho com Tóquio depois do adiamento. É mais uma tentativa de conseguir patrocínio para tentar me classificar, mas sem apoio financeiro eu não tenho o que fazer. É bem desanimador não ter um apoio do Governo, mas eu jogo tênis pela minha família, pelas pessoas que torcem por mim. É isso que eu tenho em mente quando eu jogo e é isso que me mantém querendo jogar.

Por outro lado, a CBT está disposta a me ajudar em algumas viagens. Eles não me deixaram totalmente na mão. Mas, mesmo que algumas viagens sejam pagas, eu ainda preciso ter dinheiro para treinar, para viver. Esse balanço que é difícil. Se eu conseguir, vou estar representando meu técnico, minha família, as pessoas que estão sempre torcendo e comentando nas redes sociais. Prefiro pensar nisso do que quem está ganhando acima de mim se eu ganhar uma medalha.

Passei dificuldade financeira no começo, mas as coisas se encaminharam depois disso. Foi muito difícil, muito mesmo. Passei semanas e semanas chorando porque tinha perdido o tênis. Eu vi tudo desaparecendo na minha frente e eu sem poder fazer nada. 

Atingi a posição de número 13 do mundo em 2017, depois de passar pela fase mais difícil da minha vida. Logo depois de ganhar o Pan de 2015, em Toronto, fiz uma tatuagem que é a que mais significa para mim. Tatuei a palavra “Blessed” (abençoada).

Meu primo estava passando férias com a gente, em Brasília, e morreu muito rápido. A pneumonia o matou em uma semana. Era o dia de aniversário de seis anos dele. Foi muito súbito, puro desespero.

Eu estava no colégio, tinha uns 17 anos, e minha professora chegou na sala e disse que minha mãe avisou que era para ir para casa. Quando cheguei lá, sozinha, minha mãe me ligou. Foi então que ela me contou. Meu primo tinha morrido e eu tinha que contar para minha tinha, quando ela ligasse, que ele estava bem porque ela estava vindo já de avião e meus pais estavam preocupados dela entrar em pânico. Eu estava destruída. Tive que engolir o choro e mentir para ela. Aquilo me destruiu de verdade.

Toda essa experiência foi… eu não sei nem descrever. Passei anos lidando com isso internamente. Tive depressão no começo, evoluiu para ansiedade e síndrome do pânico. Parecia que o mundo não tinha cor, era preto e branco.

Todo dia eu achava que ia morrer. Realmente sentia isso. Tentava ser forte pela minha mãe que estava sofrendo, pela minha tia, que estava destruída. E guardei aquilo comigo por muito tempo. Chegou a um ponto que me consumiu tanto que eu precisei começar a fazer tratamento com psiquiatra e tomar medicação. Eu não estava vivendo. De tanto medo que tinha que morrer eu praticamente já estava morta por dentro.

Sou muito grata por ter tido forças para resistir. Hoje eu dou muito mais valor à minha vida. Garanto que vale a pena persistir. Se você sofre hoje, espera que tem uma coisa melhor para você aguardada no futuro. As coisas se encaixam. Você precisa ter paciência.

Parece que todas as decisões se alinharam. Tudo isso me proporcionou uma vida melhor. Tudo isso levou até onde eu estou hoje, ao esporte. Lidar com a deficiência não é um problema para mim. Minha mãe sempre lembra que eles ficaram surpresos comigo porque nunca perguntei o que tinha acontecido comigo. Nunca. Nem quando era criança. Nunca fiquei perguntando porque não tinha perna, porque eu era diferente. Sempre foi muito normal, é quem eu sou. 

Felizmente não tenho memória alguma das cenas desse episódio por conta da idade e do traumatismo craniano. Eu era muito nova, então não fiquei com lembrança. A memória que eu tenho é de que nasci assim. As primeiras cenas de que me recordo são de uma criança normal brincando com meus amigos no prédio em que morava, no chão. 

Nos vídeos da minha infância, estou com a perna enfaixada, brincando no chão, me arrastando e brincando com meus brinquedos, pulando em cima do sofá. Aprendi a fazer o que eu tinha de fazer. Eu não tinha uma casa adaptada. Sempre me pareceu que nada tinha acontecido. 

O maior desafio para um brasileiro cadeirante é a dificuldade de acessibilidade. Chegou a um ponto que eu odiava andar de ônibus de tantos momentos horríveis que passei. Eu precisava pegar o ônibus todo dia para treinar porque era bem longe de onde eu morava. A maioria dos ônibus não era adaptado. Hoje eu também percebo que a maioria tem o elevador quebrado. Muitas vezes minha mãe descia com a cadeira, antes de me pegar, e o motorista dava a partida. As pessoas precisavam gritar e a minha mãe corria desesperada para me pegar no ponto seguinte. Não foi uma vez, foram várias. 

O pior dia foi quando um motorista nos acusou de destruir o patrimônio público, aos gritos. Foi uma vergonha horrível. Imagina alguém ficar gritando na sua cara porque você usa cadeira de rodas. Isso tudo porque passamos a entrar pela frente para o motorista nos ver e evitar que o ônibus partisse comigo dentro. Descemos no ponto seguinte. Muitas vezes quem presencia cenas assim e solidariza, mas a verdade é que dificilmente reclamar ou processar dá resultado. 

A maior dificuldade foi fora de casa, fosse nas calçadas que não eram adaptadas ou no transporte público. Eu sempre ficava na cabeça que alguma coisa iria acontecer de tão frequente que eram esses episódios.

Andar de avião no Brasil é um pouco melhor, mas também não é o ideal. As companhias aéreas vendem a primeira fileira por ter mais espaço. E a primeira fileira é o único lugar de acessibilidade para cadeirantes nos voos daqui. Ou seja, é problema na certa. Na hora que eu embarco no voo, os comissários tentam tirar o passageiro que pagou por aquele assento. As companhias não se importam. Elas vendem o lugar que é nosso por direito antes mesmo de saber se tem alguma prioridade no voo. 

O cliente paga e a companhia aérea quer tirar ele de lá quando ele já está sentado. Imagina a cena. Isso sem contar nas vezes que queriam me cobrar pela cadeira de rodas, como fosse excesso de bagagem. Você percebe que as empresas de transporte não estão preparadas. 

Os comentários que ouço me fazem rir. “Caramba, não sabia que você era tão capaz”. Olha, eu sou capaz de tudo que coloco na minha mente para ser capaz. Tem gente que vem em mim e fala que vai rezar para minha perna crescer de novo, para voltar a andar. Não! Não é uma coisa que eu peço a Deus, sabe? Não quero que ele traga minhas pernas de novo. É meio engraçado, pelo menos tento levar assim. Você percebe que muitos ainda são ignorantes em relação a nós. E sei que não é por mal. 

Ser um tenista paralímpico é bem desafiador, ainda mais brasileiro. A gente treina e compete da mesma forma e na mesma intensidade. A diferença é que não temos o mesmo reconhecimento e o mesmo investimento. A única diferença nas regras é que você pode deixar a bola quicar duas vezes.

Você tem que segurar a raquete e tocar a cadeira com a mesma mão. E a movimentação não é lateral. Nunca podemos ir para trás, temos que fazer curvas com a cadeira. Você tem que  conseguir ler muito bem também o jogo, que isso vai te ajudar muito, já que a mobilidade é um pouco comprometida com a cadeira de rodas. Se você souber ler o jogo muito bem, você consegue chegar às bolas um pouco mais fácil.

Meus pais foram os melhores que eu poderia pedir. Eles me permitiram ser totalmente independente. Nunca foram superprotetores, nunca me limitaram. E sempre encontrei um jeito de fazer as coisas que eu queria fazer. Comecei a viajar sozinha desde cedo, eles nunca me proibiram de fazer nada disso. Dirijo, comecei a trabalhar, estudei.

Minha família me permitiu ser totalmente independente, então seria duro ter de me aposentar não porque decidi, mas sendo forçada. Está apertado, ainda mais nessa pandemia, mas espero que as coisas voltem ao normal logo, logo.

Cheguei a ser número 2 do juvenil mundial e número 1 do Brasil no feminino. Tenho muito orgulho de olhar para trás e ver o esporte crescendo, tantas meninas jogando. Fico muito feliz em compartilhar isso e mantenho contato com as mais jovens porque é um prazer ser inspiração para elas. 

O meu futuro no tênis ainda é incerto. Não quero me aposentar, espero que seja uma pausa. Estava no auge da minha carreira e quero muito aproveitar o adiamento de Tóquio para dar a volta por cima, chegar lá e sair com uma medalha no peito.

Caso você tenha interesse em ajudar/apoiar a tenista Natália Mayara, favor entrar em contato pelo perfil no Instagram, clicando aqui.

Créditos: Leandra Benjamin/MPIX/CPB, Giuliana Vinci, Heusi Action/Miriam Jeske e Arquivo pessoalP

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