"Sh... Silêncio.

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Martin Rocca

Martin Rocca

Treinador de tênis argentino e cofundador do projeto Tennis Aid

Tênis sem fronteiras

Uma raquete pode mudar muitas vidas. Uma quadra de tênis é um espaço de cumplicidade, amizade e saúde. Muitas vezes, não é nem necessária a quadra para colocar o sorriso no rosto de dezenas de crianças. Para mim, isso é o tênis.

Lembro muito bem de como tudo começou. Em 2014, eu queria doar material para um treinador de Uganda. E aí veio uma ideia louca do meu amigo Abel Rincón. Amigo de vida, tão louco quanto eu.

“Martin, por que não vamos até Uganda entregar o material pessoalmente?”. Aquela ideia louca mudou as nossas vidas. Fomos para Uganda e demos início ali ao projeto Tennis Aid, em 2014. Enchemos as malas com todo o material e partimos para a África.

Toda experiência nos mostrou uma realidade bem diferente da nossa. Tivemos a sorte de dormir em uma cama. Em muitas casas de Uganda, uma única cama é um privilégio para quem tem oito ou nove filhos. 

Nossa intenção nunca foi viajar a turismo a nenhum dos cinco países entre os 54 que já ajudamos. Pelo contrário. Sempre nos adaptamos às condições para cumprir nosso objetivo: levar o tênis para todos os cantos mais isolados do mundo.

O tênis pode ajudar a melhorar a rotina sofrida das crianças. Em nossa primeira experiência, visitamos crianças com deficiência auditiva em Kampala, na capital do país. Foi inesquecível. Eu lembro até hoje do brilho do olhar das crianças no primeiro contato com o tênis.

As condições eram longe de serem as melhores. A grande maioria dos alunos joga descalço porque eles não têm nenhum tipo de calçado. E, mesmo que tivessem quase nada, nunca vi um episódio sequer de egoísmo quando doamos materiais. Tudo era compartilhado, tudo era coletivo. Não tinha o meu, era o nosso.

Fiquei impressionado principalmente com a educação, a disciplina e a gratidão daquelas crianças. Me lembro da dedicação deles em nossas aulas. Fomos ensinar tênis nas aulas de educação física nas escolas primárias. O início de uma longa jornada da que transformou a minha vida.

Eu não queria voltar para casa, mas precisava rever meus filhos. Partir não foi fácil, mas eu prometi a mim mesmo que voltaria. Voltando a Barcelona, decidi que jamais abandonaria o Tennis Aid. Nada no mundo podia impedir de seguir nesta missão com meu amigo de vida Abel.

O ponto de partida foi Uganda, mas tivemos novas jornadas. Visitamos o Camboja, o México, a Grécia e a Argentina, meu país natal, por causa do projeto.

Minha história com o tênis, como a de qualquer argentino da minha faixa etária – tenho 52 anos – começa por Guillermo Vilas. Meu irmão e eu assistimos ao ídolo pela TV e meu pai nos deu raquetes quando eu tinha 10 anos. Aprendemos a jogar na rua.

Nunca frequentei aulas de tênis como aluno e nem competi. Eu gostava mesmo era de brincar com meus amigos na rua. Joguei por diversão até os 18 anos, quando eu substituí um amigo treinador. Gostei muito da experiência.

Depois de muitos meses sem dar aulas, decidi que era o que eu queria fazer da vida. Lá se vão 31 anos desde que fiz um curso de capacitação para treinadores de tênis, nunca mais parei de trabalhar. 

Depois da primeira visita, voltamos à Uganda três vezes. E toda viagem é uma experiência fenomenal. Nunca deixo de me impressionar com as crianças, que crescem e seguem com o mesmo comportamento. O jeito com que se lembram de coisas que doamos há cinco, seis anos… não há palavras para descrever o sentimento de ver como o tênis transformou suas vidas. Talvez seja o mais perto da felicidade que eu já possa ter sentido.

Sempre que viajamos a qualquer país, pedimos que os treinadores organizem uma rotina esportiva. Queremos que o tênis não dependa dos poucos momentos em que estamos com as crianças. O objetivo é causar um impacto social na comunidade.

Nosso grande sonho pode parecer pequeno, é verdade, mas construir uma quadra de tênis na escola que visitamos nas nossas quatro viagens a Kampala melhoraria bastante a rotina de trabalho dos treinadores locais e dos alunos. Ainda é um sonho que queremos cumprir. Não é fácil, mas isso não nos deixa desmotivados.

Nos esforçamos de corpo e alma para levar materiais e o tênis a crianças, mas sonhamos grande. Falta dinheiro para fazer a obra da quadra, mas, enquanto isso, vamos improvisando com colaborações, sejam de raquetes, bolas e roupas. Toda colaboração é bem-vinda.

O Tennis Aid nos proporciona experiências muito desafiadoras, mas igualmente gratificantes. Pouco importa se ficamos três dias sem tomar banho em Uganda ou se só comemos um pedaço de pão durante todo o dia. Aquela é rotina diária dos nossos companheiros. Não podemos reclamar. Pelo contrário. Estar naquele ambiente com tamanha alegria, rodeado de crianças descobrindo o amor pelo tênis, é uma experiência única.

Para aquelas crianças, o tênis é a fuga de uma realidade muito dura. Uma das histórias que resume isso é do David, que faço questão de sempre contar. O nome dele é David Oringa. Ele saiu de casa aos oito anos porque não havia espaço na casa dele para nove irmãos.

David foi morar na casa do treinador dele. Jogava tênis muito bem e pediu uma bolsa em colégio internacional em Uganda. Depois de concluir a escola, trabalhou e estudou na Alemanha, onde se graduou em marketing. Hoje é tenista e capitão de Uganda na Copa Davis. 

Uganda tem um lugar especial no meu coração, mas meu sonho de levar o tênis não tem fronteiras. Lembro com muita satisfação das aulas que dei a 4500 pessoas do Afeganistão no centro de refugiados de Atenas, na Grécia. 

Eles não tinham nada, estavam em outro país, não falavam o idioma nativo e só comiam quando recebiam de doação. E aquele momento para eles foi tudo. Eles puderam se divertir, correr, brincar… eles puderam sorrir. Parece pouco, mas você percebe o quanto um sorriso pode mudar a vida de alguém que passa por um momento difícil. É a fuga de uma realidade muito dura.

Também vivenciamos momentos em que o tênis é o pão de cada dia. Viajei para a Guatemala para ministrar um curso de capacitação para treinadores de tenistas infanto-juvenis, que é o tema do meu livro, o “Tenis Base – Mini Players”. 

Chegando lá, notei que os boleiros eram crianças de 10, 11 anos, mesmo na segunda e na terça-feira. E eu estranhei… por que não estavam no colégio? E foi aí que me explicaram. Os meninos não frequentavam a escola porque eram de famílias muito pobres e ganhavam dinheiro no clube. Era o dinheiro que precisavam para comer, para viver.

Depoimento Martin Rocca 11

Lamentei que os garotos não estivessem estudando. Mas os treinadores, já adultos, disseram que aprenderam a profissão na mesma situação dos boleiros nos anos anteriores. Vê-los fora da escola não me deixou feliz, mas ao menos viviam em um ambiente saudável em que poderiam trabalhar no futuro. 

Nem sempre o entorno das crianças e adolescentes é benéfico. No Camboja, visitamos um orfanato onde morava o melhor tenista sub-14 do país. A Federação não queria ajudar o garoto porque era órfão e não tinha dinheiro para competir. Sequer permitiam que ele competisse nos torneios quando estivemos lá, em 2015. Nós intervimos. Doamos raquetes, bolas, roupas, calçados e bolsas. Só então ele passou a disputar as competições com nossa ajuda.

Para nós, o esporte não é apenas competição. Queremos que qualquer um que queira jogar tênis tenha condições de fazê-lo. Não importa onde esteja, a idade, condição financeira ou física. É possível desfrutar do tênis sozinho em uma parede ou brincar com um parceiro sem rede. Podemos colaborar de diversas maneiras, desde doações até elaborando vídeo aulas com exercícios. 

Para isso, contamos com contribuições muito importantes, como da Federação Espanhola de Tênis (RFET), que cobre os custos de todas as entregas até uma determinada quantidade de dinheiro, de tenistas profissionais, como Lara Arruabarrena, Carla Suárez Navarro, Lorenzo Giustino e Ilya Ivashka, que sempre doam materiais e da Wilson, marca de raquetes da qual Abel e eu somos embaixadores. Todas as pessoas podem nos ajudar, mas creio que os jogadores profissionais têm um impacto maior fazendo menos esforço.

Sou muito grato a todos que nos estendem a mão. A Lara Arruabarrena, especificamente, doou roupas para algumas tenistas sub-14 do Quênia. A treinadora delas nos disse que as garotas ficaram tão felizes que queriam passar a treinar todo dia. É uma motivação para que elas possam sonhar muito além da sua realidade. 

Um grande exemplo disso é a Linda Machimbo. Ela já chegou à semifinais de campeonatos nacionais sendo a única de sua região. Todas as outras são da capital, Nairobi. Tem muito talento, muito mesmo. Uma das mais talentosa meninas que já ajudamos e muito fã de Serena. 

Gravamos um vídeo dela que viralizou. Muitos tenistas profissionais assistiram, espero que tenhamos a sorte de que a Serena veja algum dia. Seria uma grande conquista para a Linda. 

Acredito que a ATP, a WTA e a ITF poderiam fazer muito mais por projetos sociais. Não somente apoio financeiro, mas também institucional. Elas podem convencer os tenistas a promover desenvolvimentos sociais e participarem de eventos em prol do tênis e dos mais necessitados. Para que mais gente queira jogar tênis, é necessário que conheça o esporte e tente praticar onde quer que seja. Novos praticantes que se divirtam e desejam contribuir com o tênis depois.

Um bom exemplo de apoio institucional foi o Spanish Tour, que promovemos em 2017 com ajuda da Federação Espanhola de Tênis. Visitamos sete cidades do país, uma em cada dia da semana. Dirigimos uma van alugada pela Federação e apresentamos nosso projeto em Zaragoza, Miranda, Madri, Murcia, Valencia, Reus e Barcelona. Praticamos tênis em cadeira de rodas e praticamos com crianças com outras deficiências, como Síndrome de Down.

Ficamos muito felizes em promover o projeto aqui na Espanha. Pudemos mostrar que os garotos que treinam não devem necessariamente viver apenas as próprias realidades. Os meninos agora conseguem entender que, se podem ter raquetes e roupas novas, eles têm muita sorte e devem ser agradecidos por isso todos os dias.

Os tenistas sub-14 dos países africanos que ajudamos precisam viajar até quatro dias de ônibus para disputarem torneios ITF. Se eu pedir que um garoto aqui de Barcelona tenha a mesma rotina, os pais e ele dirão que é impossível. Sinto que mudei um pouco a mentalidade dos meninos, eles têm mais gratidão por aquilo que recebem.

Três meninos de 12 anos que treinam comigo trocaram de raquetes e imediatamente me disseram que o material antigo iria para o Tennis Aid. Me dá bastante satisfação fazer que meus tenistas entendam o espiritual de uma doação, muito além do custo daquele material. Fico extremamente feliz e orgulhoso que possamos permitir que uma pessoa de qualquer outro lugar do mundo possa desfrutar do tênis com nossa ajuda.

Esse é um diferencial importante do Tennis Aid para os outros projetos. Sempre tentamos que o colaborador ou colaboradora que doam qualquer material, seja roupa, bola ou raquete, veja uma foto da pessoa que recebeu a doação usando o material. Isso nos dá a sensação de ter ajudado diretamente a alguém. Todas as pessoas que queiram ajudar podem nos contatar pelas redes sociais.

Também nomeamos embaixadores nos países em que colaboramos com mais frequência, como Uganda e Camboja. Já enviamos material para o Brasil e eu gostaria muito de fazer um trabalho mais elaborado com treinadores e clubes brasileiros. Adoro o Guga, que tem uma mentalidade solidária e é querido por todo mundo do tênis. Gostaríamos muito de colaborar com ele de alguma maneira.

Há muita gente generosa e bondosa no mundo, que nos permitiu colaborar com pessoas de 54 países. Recebemos demonstrações de carinho de pessoas que sequer conhecemos, sejam elas de gratidão de alguém que foi ajudado ou daqueles que fazem doações pensando na vida do próximo. 

O Tennis Aid faz parte de nossas vidas. A cada dia estamos recebendo doações, fazendo um pequeno gesto ou recebendo alguma doação. O projeto está na minha rotina, na do Abel e dos meus filhos, que participam de tudo o que eu faço. Ainda não tivemos essa oportunidade, mas eu adoraria que eles nos acompanhassem em uma viagem para a África. Eu mudei muito. Hoje sou mais sensível e toda essa experiência me faz entender situações de diversos pontos de vida. 

Sempre queremos mais. Um novo carro, uma casa maior, viajar para lugares mais exóticos, ter mais dinheiro, uma empresa maior. E essa ambição cega. Você se esquece que há muitas pessoas que não tem sequer a chance de sonhar com a vida que você tem. Eu conheci muitas crianças talentosas, mais atléticas e mentalmente mais fortes em meu caminho. O tênis profissional pode não ser uma realidade, mas o tênis pode mudar a vida delas.

Histórias como a da Linda e a do David são necessárias para valorizarmos muito o que temos e agradecer todos os dias. Milhões de pessoas que têm talento não têm condições de aproveitar e desenvolver essas capacidades. Sempre podemos sonhar com grandes conquistas, mas crescer não significa necessariamente ter mais poder. 

Eu levo comigo uma frase que tem muitíssimo impacto. A frase é mais ou menos assim: “Não, você não pode ter sempre o que você quer. É difícil, mas entenda isso: há muita, muita gente no mundo que jamais vai ter o que você tem hoje”.

Podemos ser felizes com menos. Menos roupas, menos dinheiro, menos carros. Enquanto muitos sonham com um novo telefone, um novo carro, eu sonho em levar o tênis para o mundo. Isso sim me faria feliz.

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