"Sh... Silêncio.

Foto Microfone
João Lucas Reis

João Lucas Reis

Tenista pernambucano da nova geração, ex-top 30 juvenil e campeão de três Futures

O olhar do negro no tênis

Sempre tive a consciência de que eu era diferente, mas isso nunca me fez sentir mal. Desde que eu era menor, eu percebia que era o único preto em muitos ambientes que eu ia. E isso seguiu na profissão que eu escolhi: o tênis.

A maioria dos jogadores brasileiros juvenis e profissionais são brancos. O tênis é um esporte de elite. Quantos tenistas negros existem no Brasil? São poucos de destaque. Não é nada mais que um reflexo do racismo que está impregnado na nossa sociedade, principalmente no lado da oportunidade. 

Eu nunca fui de me sentir mal assim por estar no meio de brancos porque isso vinha desde o colégio. Estudei em uma escola particular e na minha sala inteira tinha eu e mais um ou dois pretos de quase 40 alunos.

Nasci em Recife e vim para São Paulo aos 13 anos por causa do tênis. Nos torneios juvenis, já percebia que a maioria dos tenistas eram brancos. Eu nunca sofri racismo. Aquele racismo escancarado, vou colocar assim. Nunca apontaram o dedo para me falar algum absurdo. Aconteceram sim algumas coisas comigo, de ir a clubes mais elitizados e ter de encarar olhares diferentes. Não sei de verdade explicar o significado exato desse olhar. Quem é preto sabe o que eu estou falando.

Também já ouvi muitos comentários, que mesmo sem intenção, atingem e incomodam. Nos primeiros episódios dessas piadinhas, eu me sentia mal demais. Porque eu era bem jovem, então eu não sabia muito bem como assimilar e reagir. Sempre fui um cara tranquilo, nunca fui de arrumar encrenca ou de criar confusão. 

Não gosto de chamar atenção seja como for. Eu olhava para a pessoa e falava: “Sério que você pensa assim?”. Aos poucos eu fui me acostumando. Não que o costume seja uma coisa boa, mas eu entendi que o problema não estava em mim e sim nas pessoas que têm atos ou discursos racistas.

Quando eu entendi isso, comecei a agir e tentar conscientizar quem está ao meu redor. Não é fácil. Você tem que escutar o que as pessoas falam e tentar entender o que ela quer me passar dizendo aquilo. Se mesmo assim, a pessoa não tiver mente aberta de me ouvir, eu dou as costas. Nunca fui de tentar enfiar goela abaixo o que a pessoa não quer escutar. A partir do momento em que eu tento conscientizar essa pessoa e mudar o pensamento dela, estou fazendo minha parte. 

Não fui sempre assim, mas chegou um momento em que amadureci e entendi mais sobre isso e comecei a achar realmente importante essa indignação com o racismo. Para mim, esses assuntos a gente tem de cortar o mal pela raiz. Se você escuta e trata com indiferença, não fala nada e deixa passar, isso vai se manter e vai se manter, essa pessoa vai fazer de novo na próxima vez e esse assunto vai ficar estagnado. 

Racismo existe, sim. Tá aí, todo dia a gente consegue ver isso. Ver os tenistas mais bem ranqueados representando é muito importante para mim. Eu me sinto bem quando eu vejo minoria se destacando, seja qual for.

O Tsonga era meu ídolo de infância. As pessoas me chamavam de Tsonguinha quando eu ia para o clube, quando era criança eu tinha esse apelido. Me diziam: “Olha o Tsonguinha ali passando!”. Com 8 anos, eu não tinha muita ideia do que era racismo, mas me identifiquei com ele também por ser negro. Aqui no Brasil, me espelho no Monteiro. Thiago é um cara negro, do Nordeste e que hoje é o número 1 do Brasil.

É importante ter alguém ali representando. Acho que alguém mais jovem sempre vai olhar e falar: “eu também posso chegar ali”. As pessoas podem olhar diferente, podem me julgar seja lá como for, mas quando eu vejo o Monteiro lá nos Grand Slams, eu me sinto bem por alguém com quem eu consigo me identificar. Ele está se destacando fora do Brasil no esporte em que ele batalhou a vida inteira para isso. 

Ver minorias se destacando traz uma sensação de que é possível. Quero saber mais sobre essas pessoas, quero me inteirar sobre a história delas. É muito importante dar visibilidade para esses jogadores, essa comunidade. É fundamental se sentir representado. É ótimo para a causa ver novos nomes como Tiafoe, Gauff e Stephens se engajando, postando sobre a importância das vidas pretas, levantando a bandeira e trazendo essa sensação de representatividade.

Assistir a essas pessoas em destaque traz força para isso. E a partir do momento também que pretos ganham visibilidade e todo mundo vê essas pessoas se destacando no esporte ou seja em qualquer coisa que eles façam na vida, as pessoas vão vendo essa comunidade negra e vão se conscientizando por si também.

Não tenho muito contato com outros tenistas pretos. Com o Christian Oliveira, por exemplo, que é meu amigo, quase nunca falamos sobre racismo e representatividade. É difícil porque a gente se vê muito pouco. Eu acho que é uma coisa também que deveria mudar. Eu falo mais sobre esse assunto com meu irmão, com minha família, mas dentro do esporte não tenho muitos amigos que eu falo disso abertamente.

O Christian já sofreu racismo em quadra e foi inadmissível ele ter sido chamado de macaco lá no Future de São Paulo. A gente não tem contato durante muitas semanas. Então, nesse tempo em que nos falamos, nós acabamos brincando, nunca puxamos mais para o lado sério da conversa. Não tenho costume de iniciar uma conversa abordando esse tema.

Comecei a jogar tênis com quatro anos, minha família inteira joga. Meu pai e minha mãe são fanáticos por tênis. Meu irmão, seis anos mais velho do que eu, competiu até os 15 anos. Sempre, desde pequeno, admirei muito o Gabriel, sempre quis fazer tudo o que ele fazia. Passávamos o dia inteiro no clube e fui me apaixonando cada vez mais, só queria saber de tênis. Eu fazia outros esportes também, mas o tênis era minha paixão. Sempre gostei muito de jogar, quando eu tinha sete anos eu comecei a fazer aulas três vezes por semana. Tudo que eu queria, eu contava as horas para as aulas. 

Em 2010, aos 10 anos, passei a jogar os torneios nacionais. Na minha primeira final grande, no Brasileirão, perdi na final para o Gilbert Klier, que é meu amigo até hoje. Com 12 anos, ganhei o Masters do Circuito Correios. Aos 13, decidi sair de Recife para melhorar meu tênis. Fui para São José dos Campos, na Afini Tennis. Depois de seis meses na academia e uma boa gira sul-americana, fiz um teste no Instituto Tênis e fui aprovado. Estou lá há seis anos, até hoje.

No Instituto Tênis, em Barueri, meu esforço nos treinos, disciplina fora da quadra e foco no estudo sempre foram muito valorizados. Recebo uma bolsa de acordo com meu mérito dentro da equipe. É um valor que cobre os custos daqui de treino, de moradia, de tudo. Não é um contrato fechado, sempre depende da minha dedicação no dia a dia no trabalho. Com comprometimento, sempre tenho bastante apoio.

O trabalho que faço dentro e fora da quadra me dá tranquilidade de que eu vou conseguir viajar e jogar os torneios. Focar nos resultados que eu tenho de fazer para melhorar meu ranking fica mais fácil. É bom ter essa segurança nesses seis anos em que estou aqui. Já tive momentos aqui onde me coloquei pressão. Uma pessoa de 14 anos ainda não é muito madura pra resolver seus problemas da vida fora de casa. Eu tive muita dificuldade até os 16 anos, mas felizmente tenho uma família muito apoiadora.

Minha pressa para evoluir foi uma coisa natural de brasileiro. Em 2018, joguei três Grand Slams juvenis e fui campeão do Future de Curitiba ganhando do Thiago Wild na final. A partir daquele dia, a maior dificuldade que eu enfrentei foi querer progredir rápido. Não é por aí que as coisas funcionam, acho que o tenista tem de focar em melhorar o jogo dele. É uma coisa de cada vez, cada um tem seu tempo de amadurecimento e crescimento.

Eu ganhei do Wild na final há dois anos e agora ele está quase no top 100. Vi alguns jogadores avançando rápido e me comparei um pouco com eles. Fico feliz pelo Thiago ter sido campeão em Santiago, é alguém que treinou bastante comigo e o enfrentei a vida inteira. A conquista dele pode motivar outros a chegarem lá. O que a gente tem de fazer é seguir treinando, melhorar as coisas que têm de melhorar e não ter pressa, respeitando o tempo certo.

O projeto de massificação do Instituto Tênis me dá muito orgulho. Nossa equipe leva o tênis para escolas públicas. Na minha cidade, Recife, 2.500 crianças, a maioria negras, já tiveram o primeiro contato com o esporte ali. Pode ser que elas me vejam, também sintam essa representatividade e falem: “Eu posso ir atrás dos meus sonhos também, posso tentar crescer no esporte”. Ver essas oportunidades para eles é bastante satisfatório para mim.

Não sei ao certo até onde eu vou chegar, mas acredito no poder da corrente, de motivar os outros. A partir do momento que você vira um jogador de destaque e ganha visibilidade, acaba puxando outros. As pessoas se identificam e se sentem empoderadas para irem em busca dos sonhos delas.

Talvez as crianças olhem para mim e falem “Putz, eu posso. Eu posso ir atrás dos meus sonhos também, eu posso tentar crescer no esporte. Talvez, daqui a uns cinco anos eu saio daqui de Recife e vou para o centro de São Paulo lá para melhorar o meu tênis”. Espero que olhem para mim um dia e sintam essa representatividade.

Créditos: João Pires/Fotojump, Instituto Tênis e Eric Visintaine

Compartilhe a história

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email
Share on whatsapp