"Sh... Silêncio.

Foto Microfone
Fabiano de Paula

Fabiano de Paula

Tenista campeão de seis Challengers, disputou qualis em três Grand Slams, nascido e criado na Rocinha

Guga da Rocinha, o orgulho da favela

Se você não tem nada, você não tem nada a perder.

Abrir mão é uma expressão comum no tênis. Mas o abrir mão depende da sua realidade. O que eu tinha, de verdade? Eu não tinha nada. Se eu me arriscasse e não conseguisse ser tenista, voltaria para a Rocinha para correr atrás da minha vida com dignidade. 

Quem tem uma condição financeira melhor, abre mão de estar no conforto da sua casa, na sua cama, das coisas que tem. Esse abrir mão na verdade abre os olhos das pessoas, abre a mente para uma realidade diferente.

Quem é pobre se acostuma com a dificuldade. Quando você tem pouco, as dificuldades não parecem tão difíceis assim. Quando você vem de baixo, você já sabe lidar com as dificuldades melhor que as outras pessoas. 

Nasci e fui criado na Rocinha. Conheci o tênis aos 10 anos de idade. Uma amiga da minha mãe pediu para eu ajudar como boleiro em um clube. Foi assim que eu conheci o que era tênis. Nunca tinha passado pela minha cabeça ser tenista profissional. Não fazia parte da minha realidade. Meu sonho quando criança era ser jogador de futebol, jogar pelo Flamengo no Maracanã lotado. 

Ainda não pensava em trabalhar, era mais para complementar a renda. A situação logo mudou. Meu pai era copeiro, foi demitido e ficou desempregado por quase dois anos. Foi um período muito duro. Minha mãe trabalhava como faxineira, mas não ganhava muito, dava só para pagar as contas no limite. Com 10 anos, eu trazia o dinheiro para comprar comida de casa. Ganhava de 10 a 20 reais por dia.

O que ganhava como boleiro era o que tínhamos no dia a dia. Foi graças a isso que nunca passamos fome de verdade. A gente se virava como dava e comia o que tinha, fosse ovo ou salsicha. 

Ganhei uma raquete e procurei imitar no paredão os movimentos que eu via nas aulas. Fui pegando gosto pelo tênis e aprendendo muito rápido. Com 14 anos, já batia bola com tudo mundo e ganhando da maioria dos professores no clube. A minha evolução impressionou dois empresários que praticamente me viram crescer. Eles se juntaram e concordaram em dividir as despesas e me colocar em uma equipe de treinamento. Aprendi de repente a treinar.

Não tinha ideia do que era competir, treinar. Fiquei muito perdido no primeiro momento. Todo mundo tinha condição e já jogava torneio da federação desde pequeno. Eu era o patinho feio. Tinha uma raquete de cada modelo, nem competitiva era. Não conseguia ganhar de ninguém no juvenil. Não tinha experiência alguma. 

Nunca deixei de estudar. Eu treinava de manhã, estudava à tarde e trabalhava à noite até completar 17 anos. A educação ajuda muito dentro de quadra. As pessoas acham que é só jogar, só bater na bola, mas ler e estudar te ajuda muito na hora de tomar decisões, de enxergar o jogo e de montar uma estratégia. 

Ninguém apostava que eu ia virar atleta profissional, que chegaria onde cheguei. Não fazia parte da minha realidade. Passei a sonhar em ser professor de tênis, dar aula e ter uma vida melhor. Me tratavam como mais um porque não achavam que eu chegaria a lugar algum. 

Tudo aconteceu muito rápido. Passei a entender o jogo, o que tinha que fazer em quadra, como entender o jogo. Como o Dr. Ludgero Braga (PhD em biomecânica) brinca comigo, nem a ciência explica o meu desenvolvimento. Só comecei a jogar de verdade com 14 anos, só passei a competir de verdade no juvenil na reta final. 

Fui realmente ser bom no juvenil no meu último ano, quando fui número 1 do Brasil. Ganhei o Brasileirão, consegui jogar uma gira COSAT, cinco torneios pela América do Sul. Na transição do juvenil para o profissional, consegui somar três pontos no ranking da ATP quando veio a minha convocação para o serviço militar. Tive que parar tudo, ficar um ano sem tocar na raquete e servir no Exército. A vontade de jogar o profissional ficou de lado e passei a dar aula por dois anos e viajar com meninos que queriam jogar Futures. Aos 21 anos, voltei ao circuito e a treinar totalmente diferente.

Fui de 1000º a 386º colocado em um ano graças ao Duda. Ele é como um segundo pai. Quando saí do Exército, já não tinha uma grana fixa, não conseguia treinar. Meu pai estava desempregado naquela época. Eu não tinha mais nada. E ele acreditou em mim. Ele treinava alguns meninos aqui do Rio e se juntou à Tennis Route, que com a tragédia em Petrópolis veio para o Rio. 

Devo tudo o que sou hoje a ele. No início, eu passava mal no meio dos treinos. Era difícil demais terminar uma sessão. A situação era tão complicada que teve um dia que ele chegou para mim e disse que não conseguiria me treinar porque eu sempre passava mal. 

Sempre tentei esconder o que realmente estava passando comigo. Eu não tinha dinheiro, não tinha comida, não tinha roupa, não tinha raquete… eu não tinha praticamente nada. Não aguentei mais segurar e abri o jogo. Contei para ele que meu pai estava desempregado e que eu não tinha dinheiro para comprar o básico, para tomar café antes de vir. Muitas vezes chegava no treino de estômago vazio. E contei que era por isso que na maioria das vezes eu não conseguia terminar o treino. Eu não tinha força para treinar.

A resposta dele foi uma ação. Ele me deu roupas dele, três raquetes diferentes – que para mim, eram as raquetes! – e uma grana por mês para ajudar em casa, para comprar alimentos. Era a estrutura que eu precisava para chegar onde cheguei no tênis mundial. Ele confiava que eu tinha nível para ser top 100. 

Não consegui por circunstâncias da vida, mas olho com muito orgulho por tudo o que fiz e pela minha história. Tenho orgulho de ter vindo da Rocinha. Tenho muito orgulho de tudo o que passei lá, tenho certeza de que tive a maior escola da vida.  Considero que o mais importante é se dedicar ao máximo a tudo que fizer, independentemente da profissão. Sonhar com coisas melhores, não se contentar com pouco. 

Somos capazes de alcançarmos coisas gigantes. Basta uma chance, precisei estar muito atento a isso. A vida é feita de oportunidades, então tive de estar preparado.para esse momento. Independentemente de apanhar a vida inteira, uma hora chega. 

Ter nascido lá e passar por tudo o que passei me fortaleceu muito para ser o que sou hoje. Tudo isso me fez dar valor às coisas que tenho e a passar tudo o que aprendi hoje para o meu filho, com o sentimento de que não quero que ele tenha que passar por tudo isso. Meus pais saíram do Nordeste, naquela dificuldade, sem grana, por uma perspectiva de futuro melhor aqui no Rio. 

Mas a vida não é um conto de fadas. Fala-se muito em oportunidade hoje em dia e eu acredito de verdade que a oportunidade poderia mudar várias histórias em favelas pelo Brasil. Não conheço ninguém da minha idade que tenha ido pelo caminho errado e ainda esteja vivo. São caminhos, não julgo essas pessoas.

Nunca passei por cima de ninguém e sempre tentei ser honesto, o tempo inteiro. Em casa a gente falava muito em lei do retorno. Se a gente fizer o bem, com certeza volta para você. Igual se a gente fizer coisas erradas. Aprendi com a vida e também com todas as pessoas que estiveram à minha volta.

Durante a vida toda a gente morou de aluguel. Depois de muito trabalho, meus pais conseguiram comprar uma casinha. Quarto e sala. Dormiam meu pai e minha mãe no quarto, minha irmã no chão e eu na sala, que só tinha o lugar para eu dormir mesmo. No início dormia no chão, depois fui para o colchão. Até a quinta série estudei em colégio público na Rocinha. A minha vida sempre foi no limite de grana. Sempre tentei fazer o bem, não trocar os pés pelas mãos, sem querer atropelar ninguém para conseguir. 

Aprendi a me virar para fazer aquilo que eu gostava. Passar perrengue é natural, para mim. Você se acostuma e quando tem algo um pouco melhor, já não acha que é tão perrengue assim. Não pude fazer várias giras por causa de grana. A saída muitas vezes era dormir em pousada com cinco, seis caras para pegar 10, 20 reais e poder jogar o torneio. 

A comida era sempre da mais barata. Precisei comer muito biscoito para forrar a barriga porque não tinha como gastar. Não passei fome, mas era sempre no limite. Comia a comida barata, macarrão a bolonhesa a três euros por dia. Não costumava pedir coisas caras porque eu lembrava da minha família. Quando ia lá para fora e via as pessoas pedindo entrecôte, sempre lembrava do pessoal lá em casa. Ficava com aquela consciência de que não adianta só eu comer bem e eles estarem passando perrengue. Se for para comer bem, é com todo mundo. 

Dormir no chão eu já dormia em casa, então não vejo como perrengue. Pelo menos estava ali pelo torneio. Já dormi até em motel, dividindo a cama redonda para pagar mais barato. Tinha vezes que eu entrava em quadra pensando na premiação que estava em jogo. Minha carreira sempre foi com ajuda, sempre no limite também, mas vendo pelo lado positivo. Se tava comendo a comida ali, pelo menos em um momento, tava legal, sabe?

Alemanha e Chile, dois aeroportos que eu dormi tantas vezes que já até perdi as contas. Era de lei. Na Alemanha a gente pegava um voo, saía daqui no Brasil de noite, chegava lá de dia e fica esperando cerca de nove horas no aeroporto. Os hotéis do Chile eram caríssimos. As noites eram muito, muito frias. Então, na verdade, eu não dormia. Passava a noite no aeroporto. Era a minha maneira de economizar para seguir jogando. 

As dificuldades seguiam quando eu chegava nos torneios. Joguei com raquete emprestada, com cordas, bolas, em quadras ruins. Já joguei com dedo de fora porque o tênis já estava furado, correndo com o dedo para fora. Era no improviso. Entrava na quadra e tinha de ganhar o jogo para poder de repente conseguir patrocínio porque que eu tinha pouca ajuda da Federação e da Confederação. O tênis verdadeiro é esse.

Quem me apoiava mesmo eram as pessoas que realmente acreditavam em mim, gostavam de mim e que queriam ajudar. Pessoas que tinham um projeto social, tinham uma empresa. Mesmo quando me aproximei do top 200, não tive apoio da FTERJ e da CBT. Falta ajudar realmente quem precisa, que está lá na correria, jogando Future e com chance de ir mais longe. Você não tem nem a oportunidade de mostrar o seu valor.

Parei de jogar em março de 2018, aos 29 anos. O motivo foi total financeiro. Buscava a transição para as duplas porque voltava de uma lesão no ombro. Quando parei, estava no meu melhor ranking. Ganhei um Challenger de US$ 127 mil na Itália em 2017 e já tinha até arrumado um parceiro fixo, o Roberto Maytin, da Venezuela, que tinha sido top 100 e estava voltando motivado às quadras. Tínhamos fechado dois meses de gira e tive que desmarcar em cima da hora com ele porque não tinha mais dinheiro. 

O apoio acabou e eu tive que parar. Logo em seguida meu filho nasceu. Mesmo parado, acredito que dava para ter sido top 100 em duplas. Eu conhecia o caminho.

Tive duas lesões graves que me fizeram parar de jogar simples. A primeira foi no punho, em 2013. Era o número 212 do mundo quando tive que dar uma pausa no momento que queria quebrar o top 200. A lesão era cirúrgica, mas não nenhum médico me deu certeza de que eu voltaria. Era arriscar o incerto ou conviver com a dor. Escolhi seguir a minha jornada. Amarrava o esparadrapo no punho e aprendi a jogar com a dor. 

Fiquei cinco meses parado e quando voltei consegui bater a minha melhor marca quase dois anos depois e atingir 208ª em 2015.

Queria porque queria bater a barreira do top 200. Eu me cobrava demais. Quando perdia, me achava o pior cara do mundo e falava que ia parar de jogar tênis. Mas no dia seguinte acordava às sete horas e treinava dobrado porque eu tinha essa vontade enorme de fazer diferente no próximo torneio. 

Perdi muita energia e tempo me cobrando. Ficava revoltado quando as coisas não saiam certo. Forcei tanto que tive mais uma lesão séria, agora, no ombro. Fiquei quase um ano parado e quando voltei, não foi a mesma coisa. Hoje em dia, olhando para trás, vejo o quanto essa autocobrança me fazia, como bloqueava o meu desenvolvimento. Gostaria de ter me cobrado menos e curtido mais. Não que eu não tenha curtido. Viajei o mundo, conheci lugares novos e pessoas incríveis graças ao tênis.  

Também tive vitórias marcantes. Ganhei do Karlovic em um jogo duríssimo na altitude da Colômbia. Venci o Tsitsipas na Itália quando ele era o número 1 do mundo juvenil por 7/6, 6/7 e 7/5. Derrotei Massú, Pella, Delien, Garin e uma galera conhecida. E ainda participei daquela Copa Davis na Argentina, em 2015.

A maior vitória dentro das quadras me escapou. Tive o saque para carimbar a vaga na chave principal do Rio Open 2015. E nunca tinha vencido um jogo como profissional no Rio, tomava sempre primeira rodada. Só que nesta semana eu estava muito focado. Na estreia, venci do Bagnis com 6/0 no primeiro set. Pensei “vou me matar de correr e não vou dar nenhum ponto de graça”. Ele tentou reagir, mas venci o tie-break do segundo set. No dia seguinte, liderei por 6/4 e 5/4 na rodada final do quali contra o Cecchinato e fui quebrado. Perdi de virada. Um jogo de quase 4h depois de mais dois sets decididos tie-breaks no calor que parecia ser de 50º C.

É aquele jogo que muda a sua carreira. Foi assim para ele. Eu fiquei dias sem dormir. Até hoje tenho esse fantasma. Os três anos seguintes foram anos em que apanhei muito. Logo no torneio em seguida estourei o ombro no aquecimento. Tive que operar e no meio-tempo perdi o meu pai. Um baque atrás do outro.

Meu pai sempre me apoiou muito, sempre me deixou à vontade, o cara tinha o maior orgulho do que eu me tornei. Uma bobeira. Ver as pessoas dentro da Rocinha elogiando a mim e a ele é motivo de muito orgulho. Lembro até hoje da quinta-feira em que ele partiu. Foi de repente, por aquela alergia a camarão. Aquela que fecha a garganta. Eu estava dormindo na Tennis Route, dividia quarto com o Pedro Sakamoto.

O celular tocou. Era minha mãe e ela nunca me ligava de madrugada. Aquele desespero todo é uma sensação que nenhuma pessoa deveria passar, mas eventualmente acaba passando. Foi bobo, ele não chegou nem a comer todo o camarão. Deu uma mordida, comeu a metade com amigos que tinham acabado de pescar, no bar dele, que conseguimos comprar com muito suor. Ainda levaram meu pai às pressas para a UPA da Rocinha. Não teve jeito. Menos de um ano depois da morte dele, descobri que ia ser pai. A chegada do meu filho diminuiu um pouco essa falta do meu pai.

Não foi fácil chegar onde eu cheguei. Quando era boleiro, no início da adolescência, precisava trabalhar e no caminho muitos moleques da minha idade ficavam debochando: “Á, é o Guga da Rocinha. Vai lá trabalhar, otário, vou lá para praia curtir”. Tinha até outros que falavam “vem pegar a minha bola”, com a mão naquele lugar, tentando tirar onda. E eu ficava com aquilo na cabeça. Claro que queria também estar na praia naquele calorão, como eles faziam. Mas eu não podia. Eu precisava ajudar em casa. Ouvir aquilo me incomodava, mas logo deixei de esquentar e não dei mais ouvidos.

Anos depois, a gente teve uma reunião do colégio e teve um menino que lembrou e me parabenizou: “Caraca, você foi o único cara que começou numa coisa, continuou e se deu bem”. 

Sofri preconceito no tênis juvenil por ser o menino da Rocinha. Quando comecei a jogar meus primeiros torneios fora do Rio, as pessoas souberam que eu morava na favela, no Rio de Janeiro. Ao chegar nos torneios, já me olhavam de um jeito diferente, principalmente os pais. Todo mundo deixava as raqueteiras largadas até eu chegar. Quando eu aparecia, todo mundo puxava seus objetos para si.

Ninguém falava alto, mas eu percebia nos olhares diferentes. Sentia essa sensação estranha, como se eu não pertencesse àquele ambiente. E eu ficava “caramba, acho que as pessoas estão pensando que eu vou querer roubar”. Como isso me chateava no início. Em quadra, teve um adversário que chegou para mim e falou “seu favelado, seu pobre”, querendo mexer comigo.  

Quando comecei a melhorar meu desempenho, fui convocado para um torneio interfederações. Durante a competição, sumiu um objeto da equipe do Rio de Janeiro, da minha equipe. O atleta disse que tinha sumido e os pais logo vieram me enquadrar. Não foi de uma maneira agressiva, mas eles me chamaram no canto e perguntaram se por acaso eu tinha visto. Na hora fiquei indignado, falei para olharem o que quisessem meu, eu não tinha pegado nada de ninguém. E, adivinhe, eu fui o único enquadrado. Não são coisas que falam diretamente na sua cara, são atitudes que mostram preconceito por eu ser favelado. 

Precisei conquistar a confiança das pessoas e nunca mais passei por um episódio assim. No profissional, se você está lá é porque você mereceu, não importa de onde você venha.

Tudo o que passei fez com que eu crescesse, seguindo o meu caminho, abaixando a cabeça e me motivando a continuar. Deu certo. Não reclamo de nada porque, querendo ou não, o tênis é um esporte muito elite, difícil e caro. E, mesmo assim, consegui escrever a minha história.

Quem é da favela se acostuma com a violência diária. Fica internalizado e vira algo normal. No início você tem medo de troca de tiros, de ver pessoas que você conhece morrendo, mas acontece com tanta frequência que você inevitavelmente se acostuma. 

“Para, para, para”. As abordagens policiais eram parte da minha realidade, do meu cotidiano. É desesperador você ter uma arma apontada para você. Não foi uma, duas ou três vezes. Ser favelado é conviver com isso. Poderiam ver uma maneira diferente de abordar. Eu já fui abordado várias vezes com raquete, algumas até mais calorosas. 

Eu tentava pedir calma, falar tudo o que tinha comigo, com as mãos ao alto para que o policial não tenha nenhum tipo de surpresa. Até evitava andar com a raquete quando ia para casa para não subir com raquete ou a capa na mão, para não ser confundido, para não ser mais um. O policial que está com a arma na mão tem um segundo para decidir o que vai fazer. Poderia ter um pouco mais de paciência, mas às vezes realmente quem vai ser revistado está armado. É muito complicado. Um aperto e a sua vida já era. Infelizmente muitos inocentes morrem assim.

Tem coisas que marcam realmente a vida de uma pessoa. Vão passar anos e anos, vou estar velhinho e vou saber contar essa história com todos os detalhes. Tinha 13 anos, treinava de manhã, estudava à tarde e trabalhava à noite. Tinha acabado de lançar o Playstation 1 e era uma febre. Tinha uma lan house de videogame na Rocinha que eu passava depois de voltar do trabalho para jogar com meus amigos. 

Eram 23h58, o último jogo. Lembro de olhar para o relógio. Estava acabando, a gente já ia embora.

Ao sair da loja, estava um clima pesado, estranho. A gente escutou um som muito forte. Uma explosão. Gelei. Sentia que ia acontecer alguma merda. Não deu outra. Passaram cinco segundos e começou. Vinha tiro de todo lado e muita bomba estourando. Era uma guerra entre facções e eu estava na rua. 

Foi o dia que corri mais rápido da minha vida, desesperado pela minha vida. A única coisa que vinha à minha cabeça era a minha mãe. Só queria me esconder o mais rápido por causa da minha mãe. Impossível não imaginar na hora que eu morreria. Eu só pensava que ia morrer, que minha mãe ia chorar, ia ficar triste.

Quanto mais a gente corria, mais próximo pareciam estar dos barulhos. Fui subindo a favela com os meninos e no meio do caminho, todo mundo se separou. Deram um tiro no transformador e deixaram tudo escuro. Eu não sabia para onde ir. Não tinha ninguém na rua, só ouvia os tiros e muito barulho. 

Exausto, parei com cãibra nas duas coxas. Não sei se foi de medo, não sei se foi de cansaço, mas lembro que ao abaixar a cabeça, coloquei as mãos nos dois joelhos e abaixei para respirar… e senti uma pessoa correndo. Um vulto, um vento. Ela foi na direção de uma escadaria imensa. Instintivamente fui atrás. No meio da escadaria, percebi que não tinha ninguém descendo a escada, somente eu. Foi então que avistei um bar aberto, como se estivesse tudo normal. Corri para o bar, comprei uma água para dizer que estava consumindo. Disseram para mim que  “a operação daqui a pouco acaba”. E não acabava.

Chegou um determinado momento que o dono viu que o negócio estava feio e decidiu fechar. E eu fiquei lá dentro, tremendo, chorando. Consegui ligar para casa, minha mãe desesperada pedindo “pelo amor de Deus” para não sair de lá.  Fiquei, fiquei… e acabei dormindo no bar. Acordei às 5h com o dono do bar avisando que já tinha acabado e que iria para casa. 

Eu não tinha noção do que tinha acontecido. Não sabia que era apenas o início de uma guerra de território. Fui descendo devagarinho pelo meio da pista na Rocinha e não tinha ninguém na rua. Me deparei com pessoas mortas pelo caminho e carros revirados, com buracos gigantes de tiro. E saí correndo de desespero para enfim chegar em casa, tremendo, até avistar minha mãe chorando.

Tudo foi muito marcante porque desde a hora que eu acordei, antes mesmo do tiroteio. Já senti um dia pesado. Foi um dia meio na marra. Essa guerra já vinha sendo avisada há muito tempo. Ninguém saía e aí nunca acontecia. Avisaram naquele dia, só que ninguém deu bola. Todo mundo ficou na rua e realmente aconteceu. Quando deu a primeira explosão já saí correndo porque já sabia.

Fiquei com o trauma. Qualquer barulho que tinha, eu começava a tremer, a chorar. Eu não conseguia dormir. Qualquer barulho me deixava aterrorizado porque eu lembrava da sensação de que iria morrer. Aquilo me marcou e deixou uma cicatriz em mim. 

Depoimento de Fabiano de Paula

Foi um dos fatos mais marcantes de todos os 29 anos morando na Rocinha. Por mais frequente que seja, você estar no meio, não ter para onde correr, não ter opção… não ter saída. Se não fosse esse barulho, esse vulto, como a gente fala… não sei, de verdade. Para mim foi um sinal de Deus. 

Faz dois anos que saí de lá. Foi um momento duro dentro da comunidade e eu estava com filho para criar. Minha esposa estava grávida e o ano inteiro praticamente foi de conflito, muita troca de tiros. Tentei segurar o máximo porque não queria sair de lá por causa dos familiares. Foi inviável. O nosso medo era de que quando fosse a hora do neném nascer tivesse uma troca de tiros. 

Hoje eu moro em Jacarepaguá, em uma condição um pouco melhor. Quero ensinar meu filho que o mundo é o mundo. Não é aquele conto de fadas, vai ter muita dificuldade, mas ele não precisa passar por isso. Ficar no meio do tiroteio, ficar se escondendo, ter medo de sair de casa, ir e vir.  

Considero a Escolinha Fabiano de Paula, na Rocinha, a minha maior vitória, a maior conquista da minha vida, mais do que qualquer feito dentro das quadras. Temos uma quadra de saibro lá no alto da Rocinha e atendemos hoje cerca de 70 crianças, mas já chegamos a 200. Em cinco anos de projeto, conseguimos ajudar muitas famílias. Porque não envolve só o tênis. Tem crianças que vão descalças, ou com um só tênis, até com estômago vazio, sem comer, como foi comigo, lá atrás. 

Antes eu achava que passava dificuldade. Mas tem muitas, muitas pessoas em situações mais difíceis. Eu me sinto privilegiado, de verdade. Às vezes me sinto até rico perto dessas pessoas. Então sempre mantenho pé no chão por conta disso.

Se os nossos governantes tivessem um pouco mais de sensibilidade, se eles dessem mais oportunidade, com certeza teriam milhares de Fabianos, não só no tênis, em qualquer esporte. Vários jogadores de futebol saem de comunidades. Quantos talentos são perdidos porque uma das primeiras coisas a se cortar é o esporte?

Sempre tive na minha cabeça que como as pessoas me ajudaram demais para eu chegar onde cheguei – desde pequeno sempre tinha na cabeça que um dia (não necessariamente com um projeto social de tênis), mas queria retribuir de alguma forma o que fizeram por mim.

A Tennis Route abraçou a ideia. Virou um projeto modelo para projetos sociais no Rio. Muitas crianças começam do zero e viram rebatedores, professores de tênis. O projeto dá um clarão de futuro melhor. Dependemos da ajuda do Governo para seguir. A inauguração foi com a presença do Djokovic, em novembro de 2012.  Depois de um ano, ficou abandonada na troca de mandato.

Aí que a gente viu a oportunidade, foi lá e fez o projeto ficando lá na quadra. Temos de correr atrás o tempo todo porque precisamos de doação, ajuda. Porque senão o projeto acaba e, para gente, seria muito triste. Há muitas famílias beneficiadas pelo projeto que passariam muito mais dificuldade do que já passam. Porque somos nós que contribuímos de alguma forma.

Fiz parte da Rocinha e a Rocinha sempre vai fazer parte de mim.  

Para ajudar/doar à Escolinha de Tênis Fabiano de Paula, na Rocinha, basta entrar em contato pelo Facebook ou Instagram do projeto.

Créditos das imagens: Cristiano Andujar/CBT, João Pires/Fotojump, Divulgação/ATP, Bianca Gentil e Acervo pessoal.

Compartilhe a história

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email
Share on whatsapp