"Sh... Silêncio.

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Bruno Soares

Bruno Soares

Campeão de 6 Grand Slams em duplas e ex-número 2 do ranking de duplas da ATP

De Minas para o mundo

Foi a coisa mais maluca que aconteceu na minha vida. O timing foi coisa de cinema. Sem dúvidas, a maior frustração da minha carreira.

Na vida, um atleta tem muita frustração. Geralmente derrotas por não converter um match point, aquele jogo que escapou e não te deixa dormir pensando… e se? Esse não foi o meu caso. 

Meu sonho olímpico em Tóquio acabou no primeiro dia. Eu estava de mãos atadas. Não pude nem lutar contra a situação. Pela primeira vez na minha vida me tiraram de algo tão grande, tão importante para mim. 

Não é como se eu tivesse chegado à semifinal e perdido a disputa da medalha de bronze com dois match points. Sim, isso seria uma frustração gigante também. Mas a minha história foi diferente.

39 anos para ter uma crise de apendicite e eu consegui “acertar” em uma das semanas mais importantes da minha vida. Sempre sonhei em ganhar uma medalha olímpica, mas depois do meu primeiro título de Slam passou a ser o foco maior.

Jogar a Olimpíada no Rio foi uma experiência difícil de explicar. É uma das maiores sensações e realizações de um atleta. Em casa, era ainda mais especial. O Maracanã estava lotado, a delegação cantando… eu me arrepio só de lembrar. 

Tudo foi muito intenso. Eu vivi um ano mágico no circuito em 2016. Ganhei dois Grand Slams e terminei como a dupla número 1 do mundo, com o Jamie Murray. 

A sensação de entrar em quadra foi similar. Eu e o Marcelo sempre fomos muito apaixonados por competir pelo Brasil. Ali não é o Bruno ou o Marcelo. Estávamos jogando pelo nosso país com uma torcida gigante.

Jogar em casa também traz uma pressão gigante. Todo mundo sabia que era uma esperança de medalha. Mais que isso. Havia uma chance real. Na estreia pegamos uma dupla tranquila e conseguimos acalmar um pouco os ânimos.

Na segunda rodada, tiramos o Djokovic e o Zimonjic. Foi um dos jogos mais marcantes da minha vida porque o Zimonjic é um dos maiores da história nas duplas e o Djokovic na simples. E ele já tinha perdido na simples para o Del Potro.

Estávamos a um jogo da briga pela medalha. Tínhamos pela frente os romenos Horia Tecau e Florin Mergea nas quartas de final. E não passamos. A gente jogou bem, a torcida estava ao nosso lado, a quadra estava lotada… mas perdemos. Nada de medalha. Ainda tinha quatro anos pela frente, mas Tóquio já estava em minha mente.

Eu me preparei durante cinco anos. Nem uma pandemia conseguiu mudar meus planos. Pelo contrário, eu encontrei um gás e vinha de um dos meus melhores anos da vida. E o momento enfim havia chegado.

A viagem para o Japão seria no sábado à noite. São Paulo a Houston e depois eu, Marcelo Melo e o Daniel Melo seguiríamos para Tóquio. Foi quando eu comecei a sentir um incômodo na barriga.

Pensei que era uma infecção estomacal. “Vai passar. De repente eu comi algo ruim que não me fez bem”. Não tinha motivo para desconfiar. Eu realmente pensei que estava tudo bem. Porque não sentia nem dor, pareciam gases.

No segundo voo, 45 minutos depois do avião ter partido, comecei a sentir uma dor absurda. Parecia que alguém estava enfiando quatro facas na minha barriga. Uma sensação de dor como nunca senti antes. Eu tentei dormir pra esquecer a dor. Naquele ponto eu já desconfiava que estava com uma infecção estomacal. 

Com cinco horas de viagem, finalmente consegui vomitar. Vomitei muito, muito mesmo. Me limpei, escovei os dentes e voltei para a poltrona. Ali me deu um alívio porque enfim tinha conseguido colocar tudo para fora. O alívio foi breve.

Não passou. Quando eu sentei, a dor estava pior. Aí eu falei: “Putz, isso aqui não é estômago”. Passei mal de novo e cheguei zonzo ao Japão. O protocolo no aeroporto demorou umas cinco horas, então, quando eu cheguei lá, os médicos do COB já estavam avisados. Tomei uns remédios antes de dormir. Eu tava só o bagaço.

Acordei dolorido no dia seguinte e fui ao departamento médico. Eu gritei de dor quando a doutora fez o teste de apertar o abdômen. A tomografia só confirmou o que ela suspeitava: era apendicite. 

Não teve jeito, precisei operar o apêndice. A Olimpíada de Tóquio acabou para mim antes mesmo de ter começado. Precisei desistir em cima da hora e dar adeus ao sonho da medalha olímpica.

Foram cinco anos de ciclo olímpico. Eu e Marcelo estávamos bem preparados. Somos experientes e sabemos que tínhamos uma chance real de medalha. Era encaixar uma semana. 

Tínhamos total chance de ganhar o ouro. Enfim havia chegado a hora de jogar pelo nosso sonho, de trazer uma medalha para o país. E foi justamente nesta semana que eu precisei operar com urgência.

Foi uma das piores semanas da minha vida. Podia ter acontecido em qualquer semana dos últimos cinco anos, mas foi exatamente neste dia. Se eu quiser jogar outra Olimpíada, só daqui a três anos. 

Duro foi digerir. Provavelmente seriam meus últimos Jogos Olímpicos. Eu tinha que processar tudo isso e, ao mesmo tempo, lidar com toda a adrenalina de passar pela mesa de cirurgia. Felizmente a cirurgia foi ótima. Cheguei no hospital às 13h e na manhã do dia seguinte eu já tinha sido liberado.

A consolação para aquela frustração foram os oito dias em Tóquio. Por mais que eu não tenha jogado, eu estive presente, participei, mesmo que não nas quadras. Recém-operado, eu fui ver um pouco do time jogando no sábado, com todo mundo em ação. Eu vivi a experiência olímpica novamente, mesmo com um curativo, três pontos ainda cicatrizando e todos os cuidados necessários do pós-operatório.

Representar o Brasil sempre foi um privilégio gigantesco pra mim, mas minha história no tênis começou bem longe daqui.

Eu nasci no Brasil, mas quando tinha dois meses de idade, nos mudamos para Bagdá. Meu pai foi trabalhar no Iraque como engenheiro civil em 1982. Foi lá que comecei a jogar, acompanhando minha mãe e ele. O tênis sempre esteve presente na minha vida por onde passei, precisávamos nos mudar várias vezes pelo emprego do meu pai.

Quando eu tinha seis anos, a gente voltou para passar as férias em Belo Horizonte, ele tinha mais uma semana de trabalho e voltaria. Aquela semana se transformou em quatro meses porque começou a Guerra do Golfo.

Como eu era uma criança, não tinha muita noção da situação. Meu pai estava refém em uma guerra e só tinha direito a uma ligação de cinco minutos por semana. Minha mãe ficava aflita. Ele diz que se sentia relativamente seguro no confinamento porque eles começaram a liberar quem não era dos Estados Unidos, que eram os adversários do Iraque. Era o caso dele, felizmente.

Aprendi a jogar tênis no Iraque, com as aulas meio em árabe e meio em inglês. Minha mãe diz que eu compreendia bem, mas não me lembro de nada porque nunca mais fui a Bagdá. Já faz 33 anos que tudo isso aconteceu.

Quero muito voltar a Bagdá, ver o lugar em que eu cresci. Levar meus filhos pra conhecer também. Hoje em dia é impossível, espero que um dia possa ser seguro o suficiente para a gente ir.

 A minha história com o tênis começou lá, mas foi aqui em Minas que toda essa história foi construída. Minha carreira tenística começou para valer nos Campeonatos Mineiros e Campeonatos Brasileiros de 9 e 10 anos. 

Logo que voltei ao Brasil, conheci o Marcelo Melo ainda no juvenil. Sim, ele já era um mini Girafa desde novo. A gente sempre foi muito amigo, nós crescemos juntos no circuito. É muito legal ter conseguido estar nos mesmos torneios que ele, o Daniel Melo e o André Sá. Fomos de Belo Horizonte para o mundo do circuito sempre ajudando demais um ao outro.

A transição para o profissional é dura. Fui top 10 juvenil, mas quando eu fiz a transição, empaquei. Demorei a entender o circuito. Os meus primeiros anos foram muito duros, só entrei no top 300 em 2003, ou seja, no meu terceiro ano de circuito. Em 2004, eu comecei a me estabelecer, mas também não evoluía.  Não consegui passar disso de 221º em simples. Foi uma frustração muito grande, eu achava que poderia ter sido bem melhor do que era.

Aos 23 anos, tive uma fratura por estresse na tíbia e uma inflamação no trato iliotibial. A lesão eu recuperei em seis meses, mas a inflamação não cedia e precisei operar para soltar os músculos. Uma cirurgia raríssima e de recuperação longa, então só joguei dois torneios entre julho de 2005 e julho de 2007.

Nos dois anos em que eu fiquei parado, abri uma franquia americana de ginástica de academia só para mulheres, administrava no dia a dia. Naquela época, ninguém sabia quem era Bruno Soares. Eu era um Zé Ninguém, então foi muito legal. Sempre quis investir em coisas que me interessam. 

No segundo semestre de 2007, voltei ao circuito. Ranking zerado. Eu já tinha o plano B de ser empresário enquanto precisei fazer fisioterapia, mas o retorno foi melhor do que o esperado. Fui campeão de três Challengers e terminei o ano no top 200 nas duplas. 

A coisa aconteceu muito rápido. Em Roland Garros, entrei como alternate e só perdi na semifinal. Era #192, cinco meses depois estava top 40. Encerrei 2008 como o número 23 do mundo.

André e o Marcelo já jogavam juntos e o Daniel era o treinador. A premiação era menos da metade do que é atualmente. Eu precisava pensar. E eles me ajudaram a colocar na ponta do lápis, me aconselharam e eu decidi: aposentei da simples, agora eu sou um duplista.

Fui jogar os maiores torneios do mundo. Tinha arrumado uma dupla fixa com o Kevin Ullyett, que era um cara top 10. Mantive meu ranking em 2009 e meu parceiro decidiu no início de 2010 que iria se aposentar. Falei com o Marcelo Melo e a gente resolveu jogar juntos naquela temporada. Foi a realização de um sonho de criança nosso.

Ganhamos três títulos juntos, mas no final de 2011 eu tive a sensação que a gente estava muito cru, achei que seria importante pegar experiência com outros parceiros. Se eu voltasse no tempo, talvez não teria tomado essa decisão, mas naquela época eu pensei que seria um amadurecimento no circuito. Poderíamos ter evoluído como dupla.

Ninguém sabe o que a gente teria feito se a gente tivesse continuado junto. Poderia ter um peso em mim se tivesse dado errado pra algum dos dois, de eu ter sido o responsável por aquela decisão. Felizmente não deu e nós dois tivemos bons resultados com outros parceiros.

 A gente tem por essência ser muito egoísta no tênis. É um esporte muito individualista e no dia a dia tá cada um olhando o seu lado.

Mas com o amadurecimento eu consegui enxergar o tênis com um outro olhar. Porque no fim somos todos tenistas, colegas de trabalho e companheiros de circuito.

Foi em 2014 que eu me juntei ao Conselho da ATP.
Eu queria contribuir e representar os duplistas. Para mim, foi uma grande escola. Porque ali eu entendi que não era tão fácil quanto eu pensava. 

A nossa grande vitória foi o aumento da premiação dos Grand Slams, liderado pelo Federer. E a minha pessoal foi ter liderado o movimento para ter mais marcas expostas nos torneios ATPs. Não consegui ganhar nos Grand Slams, mas foi um grande avanço. Eu fui atrás, organizei reuniões, apresentei no Conselho. 

Estou no meu oitavo ano no Conselho da ATP e aprendi lá que todo mundo está ali para ganhar. Pude conhecer os torneios, os diretores e, dentro desse egoísmo de cada um, tomar decisões educadas e conscientes.

É um processo de mudança bem lento. A maior frustração é o sistema da ATP. É muito engessado, com conflito gigantesco de interesses e qualquer mudança requer uma certa politicagem. Acaba sendo um “toma lá, dá cá”. Mas acredito que contribui para melhores condições do que as que tínhamos quando eu entrei.

O meu amadurecimento no tênis foi paralelo ao amadurecimento também fora das quadras. O tênis foi uma plataforma fantástica para eu ter acesso a coisas muito interessantes, a pessoas muito inteligentes que me ajudaram ao longo do processo. Entendi que o mundo do tênis, por mais bem-sucedido que fosse, uma hora ele iria acabar e eu precisava me preparar.

Em 2015, resolvi fazer um plano de aposentadoria. Foi quando eu me tornei sócio do Hugo Dalbert, que também é meu treinador.  Então, hoje tenho uma vida de empresário e tenista. 

Eu continuo jogando no tênis porque eu acredito que posso ganhar os grandes torneios. Enquanto o bichinho estiver dentro da barriga, o friozinho toda vez que eu entro em quadra para competir estiver acontecendo, eu sigo. Sou apaixonado por isso, eu amo competir e não gosto de perder.

Atingir duas finais de Grand Slam e terminar como dupla número 1 mundo em 2020 me deu uma motivação absurda. Mas não pense que foi fácil.

Eu me preparei como nunca antes na minha vida. Nunca havia treinado de forma tão intensa e inteligente. Me dediquei o máximo possível, com a meta de voltar bem. 

Nos cinco meses sem torneios na pandemia, pude descansar, recuperar meu corpo, tirar as dores e realmente fazer uma preparação muito boa. Ganhar o US Open aos 38 anos foi uma grata recompensa. E dei aquela motivada… “Cara, eu ainda sou competitivo”.

Por mais que eu não esteja tendo uma excelente temporada, o Jamie e eu tivemos alguns ótimos resultados em 2021. Ganhamos o torneio preparatório em Melbourne e fizemos semifinal do Australian Open. E eu sei que posso chegar aos Grand Slams, pegar confiança com duas ou três vitórias e ter todas condições de ser campeão.

Mesmo aos 39 anos, ainda me sinto capaz de ter grandes conquistas. A idade tem um peso no meu corpo, não é só um número, é verdade. Já não tenho a mesma explosão que eu tinha há cinco anos, mas tenho a mesma paixão, então consigo compensar.

A ideia de parar de jogar não me assusta nem um pouco. Quando eu resolver me aposentar do circuito profissional, vou estar bastante atarefado dando sequência aos projetos que eu tenho em paralelo.

O mais importante para mim é ser a pessoa que eu sou. Ter certos princípios da vida como humildade e respeito é muito mais relevante do que ser lembrado como um cara campeão de seis Grand Slams. 

Mais do que minhas vitórias, minhas conquistas, eu quero ser lembrado como uma boa pessoa. O sucesso no âmbito profissional não deve definir o seu caráter como pessoa.

Meu grande objetivo com o tênis é transformar a vida das pessoas. Eu e o Hugo trabalhamos para isso, mas hoje ainda não estou tão presente quanto me vejo no futuro, quando não estiver mais atuando profissionalmente. Nosso foco é olhar o tênis como um caminho para educação, com objetivo do circuito universitário nos Estados Unidos. 

Quero inspirar as crianças a entrarem no mundo do esporte e a sonhar. Mostrar como o tênis transforma a vida das pessoas. Serei um cara realizado se conseguir. 

Créditos: ATP Tour, Marcello Zambrana, João Pires/Fotojump, Cristiano Andujar/CBT

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